29.10.10

ABRINDO A ALMA E O CORAÇÃO

E eis que chegamos ao último dia útil da campanha para o segundo turno das eleições para Presidente da República. Em menos de 48h estarão votando milhões de brasileiros, decidindo o destino do Brasil pelos próximos 4 anos. Foi, quero lhes dizer, como já disse hoje mais cedo meu irmão querido, Bruno Ribeiro, aqui, a mais difícil campanha da qual participei. Em 1989 não foi mole, mas o espaço que tínhamos para ocupar com o exercício da militância era infinitamente mais reduzido. Hoje, com a grande rede ao alcance de todos, nós, militantes da esquerda brasileira, pudemos expôr a cara na janela e defender, com unhas, dentes, coração e alma, a candidatura que abraçamos, a de Dilma Rousseff. Quero, então, lhes dizer meia-dúzia de palavras sobre essas últimas semanas. Antes, porém, um novo intróito.

Tenho, já lhes disse isso diversas vezes, muitos afilhados e afilhadas - que me dão a chance de vivenciar a paternidade que não me foi permitida exercer de forma plena. Uma delas, Ana Clara, nasceu no dia 16 de dezembro de 2002, pouco depois da primeira eleição de Lula. Dia desses, durante uma visita à pequena, ela abriu uma das gavetas da cômoda que fica em seu quarto e me exibiu, com um sorriso de matar de tão bonito no rosto, toda orgulhosa, uma carta que entreguei a seus pais, ainda na maternidade, minutos depois de sua chegada ao mundo e a ela endereçada. Vejam vocês o teste cardíaco. Disse-me ela:

- Você me escreveu essa carta no dia em que eu nasci. Posso ler pra você?

E leu.

Leu, meus poucos mas fiéis leitores, e ela deu de chorar durante a leitura e eu guinchava de tanto que também chorava. Em resumo, eu festejava sua chegada à vida e dizia a ela sobre a recente eleição do operário que haveria de mudar a história do Brasil. Pra piorar meu estado, entre soluços ela dizia:

- Muita gente saiu da miséria, né, dindo? Hoje tem mais gente pobre estudando, né, dindo?

E ficamos ali, abraçados, até que prometi levar a baixinha comigo, no domingo, pra apertar a tecla verde do "confirma".

Enfrentamos, todos nós, ao longo dessa campanha, um massacre no que diz respeito à afronta à verdade. Mentiras, jogo sujo, golpes baixos, uma imprensa abjeta a serviço dos que lutam contra o bem do povo brasileiro, e isso exigiu de todos nós um esforço hercúleo. Falo por mim: fiz o que estava a meu alcance e, ouso dizer, fui mais além. Fiz deste humílimo blog uma trincheira a serviço da campanha de Dilma Rousseff. Guardo, com orgulho, alguns e-mails, alguns telefonemas que recebi, algumas manifestações explícitas dando conta de que ajudei a firmar o convencimento de alguns eleitores, e esse foi mesmo o papel que nos coube, semear e espalhar por aí o voto na nossa candidata.

Quem bem me conhece sabe a batalha que enfrento intramuros - particular, íntima, privada - e que somada à batalha que enfrentamos todos ao longo desse tempo me deixa à beira do esgotamento às vésperas do domingo. Nada disso, entretanto, é capaz de arrefecer esse desejo magnífico que é o desejo de um Brasil melhor, permanente, ao alcance de nossas mãos. Desejo que é fruto desse amor difícil de explicar, o amor pela Pátria.

Homenageio, da forma mais simples, a todos aqueles que estiveram (e que estão!) na mesmíssima fileira que eu. Citar um por um é impossível, evidentemente. Mas não posso me privar de agradecer publicamente aos que mais de perto viveram comigo esses dias tensos e agitados, essas noites mal-dormidas. Vou tentar pela ordem alfabética para não ferir suscetibilidades!

Aldir Blanc, amigo querido, com quem troquei - vá saber! - centenas de telefonemas, dezenas por dia, conselheiro certeiro de toda vida, e que me deu a honra de disparar, para toda a rede, sua declaração de voto, aqui.

Bruno Ribeiro, jornalista maiúsculo de Campinas, que bem sabe, como eu, como é verdadeira a frase que dia desses ouvi (ou li) por aí: "Essa eleição é uma catarse coletiva. É a sociedade moralista no divã, confessando suas fantasias mais perversas". Como ele, perdi amigos por conta não da divergência do voto mas pela aguda divergência de postura. E não me arrependo de ter rompido laços com gente que de gente não tem nada - e eu não sabia.

Dani, minha companheira amada, a mulher que me ensinou a sorrir e que é, sobretudo, hoje mais que nunca, a expressão da superação diuturna que me dá sustento à vida. Indo à Volta Redonda para exercer o direito do voto, comove-me sobremaneira e a ela dedico, daqui, minha mais profunda emoção.

Eduardo Carvalho, amigo novo. Cabra dos bons. E torno pública sua aventura de domingo para que saibam todos o quanto é bonito o que nos move. Comprou, há muitos meses, um pacote de viagem para o nordeste justo nesse final de semana. Embarca amanhã, o Edu. E no domingo, às sete da matina, estarei no aeroporto Tom Jobim para buscá-lo e levá-lo, a jato, pra Copacabana, onde vota. E de lá, de volta, pouquíssimas horas depois, para o aeroporto. Um grande gesto de um grande brasileiro.

Flavinha Calé, presidente da União Estadual dos Estudantes- UEE/RJ - que viveu comigo a emoção do último ato da campanha no Rio de Janeiro, incansável militante que engrandece o PCdoB, ao qual é filiada, tijucana como eu.

José de Abreu, com quem mantive contato por conta da campanha graças a coincidências incríveis, e que foi - como sempre - um militante gigante, responsável por grandes momentos na grande rede, quando convocava milhares de internautas e blogueiros para ouvi-lo ao vivo, na câmera, injentando ânimo em quem insistia no pessimismo.

Leo Boechat, meu compadre, que foi capaz de agüentar incontáveis convocações às pressas para um desabafo diante de um balcão qualquer, no Centro ou na Tijuca, conselheiro de escol, sujeito por quem tenho incomensurável carinho.

Rodrigo, de São Paulo, outro com quem troquei infindáveis telefonemas, um grande companheiro que jamais me sonegou as informações mais quentes, as notícias mais frescas e uma permanente fonte de conhecimento no que diz respeito ao jogo eleitoral e partidário.

E pra fechar... Sonia Zampronha, uma grande amiga, uma espécie de mãe-postiça, outra que jamais me faltou nas horas mais difíceis. Através dela, uma militante incansável do PT desde São Bernardo, onde morou, cheia de moral com o Presidente Lula, homenageio a todos os que entraram de cabeça na campanha. A Sonia lutou como o diabo pra dominar a internet, entrou no twitter - aqui - e viciou no troço. Cancelou viagem e outros bichos pra não perder as rédeas dos movimentos que cercaram a campanha eleitoral. Deu-me, já disse isso outras tantas vezes, dois grandes presentes: seus filhos André e Marcela, dois mais-que-queridos que também jamais me negaram o ombro quando precisei.

E encerro, por hoje, deixando com vocês essa gravação imortal da imortal Elis Regina cantando O BÊBADO E A EQUILIBRISTA, de Aldir Blanc e João Bosco, este também um parceiraço que me concedeu uma belíssima entrevista em 2007, aqui. E quero fazer a última confissão e a última homenagem do dia. Dá-se, comigo, um troço curiosíssimo...

Sempre que ouço Elis Regina (e dá-se o mesmo quando ouço o Gonzaguinha) eu me lembro, e chego a ter saudade, de um homem a quem não conheci: José Augusto Bicalho Roque. Hoje, vivendo pra lá das nuvens, no mata-borrão do céu, foi casado com a Sonia e é o pai do André e da Marcela. Militante do PT de primeira hora, o Zé Augusto foi um "cidadão brasileiro que, incansavelmente, devido à sua participação ativa à frente das nossas entidades profissionais e nos movimentos políticos e sociais, tinha a capacidade de olhar a realidade com esperança de transformá-la e de agir de forma que os desafios em ações se concretizassem", e isso foi dito sobre ele na comemoração dos 50 anos do Conselho Regional de Química do Rio de Janeiro, do qual foi presidente.

E como eu ando assim - como dizer? -, como tanta gente, emocionado a ponto de chorar em anúncio de televisão, o tempo se embaralha em mim e eu misturo o nascimento da Ana Clara com a saudade do Zé Augusto, e antevejo a emoção do domingo. Quando sairei de casa, cedo, sozinho, de mãos dadas com a esperança, essa equilibrista danada que me faz companhia há um bocado de tempo e de quem espero tanto, para mim e para o Brasil.

Era isso.


Até.

21 comentários:

leo boechat disse...

Tamos aí! É uma honra estar nesse time!

Toré disse...

Parabéns Edu por mais um belo depoimento! Também ando chorando vendo anúncios e com a emoção à flor da pele...Só posso dizer que graças a você entrei de cabeça e alma nessa campanha. Confesso que estava desanimado com a eleição, mas graças a sua entrega comovente à campanha da Dilma me empolguei como há muito não fazia. Obrigado por resgatar em mim o sentimento de patriotismo e de cidadania há algum tempo perdido. Grande abraço e domingo vamos à vitória !

Bruno Ribeiro disse...

Eu acho que até domingo chegará ao fim o meu reservatório de lágrimas. Sinto-me desidratado.

André Z. Roque disse...

Edu,

quando eu parar de chorar, talvez consiga agradecer.

Ah, e pra vc é apenas "Zé", que é como nós, íntimos, o chamávamos.

O Zé de quem sinto falta todos os dias, mas principalmente em momentos como o atual. Como gostaria de sentar com ele e fazer um balanço desses últimos 8 anos - e festejar os que virão. Com a força do povo!

Beijo.

NADJA GROSSO disse...

Edu
Já não aguento mais, tenho medo de não conseguir chegar bem até domingo, tantas lágrimas, tantas emoções,porem tenho certeza que de um maneira ou de outra estarei dando o meu voto DILMA 13, no próximo domingo. Beijos

Renata Werneck disse...

Querido amigo! Muito obrigada por nos emocionar e por viver tantas emoções conosco. Grande beijo.

Claudia disse...

Eu nunca vi uma campanha tão nojenta capitaneada pelo PIG. Mas domingo está chegando, com ou sem o PapaRatzi.

To me guardando pra quando o carnaval chegar.

Abraços tijucanos e lulistas!

Sonia M. disse...

Querido filho postiço, Depois escreverei algo para você, agora... é impossível.

bjs

Eduardo Carvalho disse...

Edu,
de olho cheio te leio agora, como de olho cheio respondi ao seu e-mail hoje, logo cedo, combinando o nosso encontro no aeroporto - proposta que só poderia partir mesmo desse seu coração imenso, imenso.

Obrigado por tudo, principalmente por me permitir privar da sua companhia, (ainda) muito menos do que desejo - e com certeza mais do que mereço.

A minha ida às urnas no domingo para votar, de novo, na Dilma, é uma obrigação - uma felicíssima obrigação - com o povo do meu país. Com brasileiros como você, cujo amor pelo povo e pelo país está no grito e no mais calado silêncio. É pela minha filha, a minha Luísa, o amor maior de toda a minha vida, que às vésperas dos seus 5 aninhos vive num país muito melhor do que era o meu quando tinha a idade dela, um outro país - mais justo socialmente, que cresce E distribui renda AO MESMO TEMPO, que se impõe no mundo pela conversa, pela negociação que não se intromete no país dos outros... O Brasil não mais apenas do futuro, mas do presente, grande, maiúsculo - e tudo, tudo graças ao comando brilhante do presidente LULA.

O voto é pela minha mulher Renata -porque, vc bem sabe, "a vida é arte do encontro" -, é pelos meus amigos... E já não consigo mais seguir escrevendo.

Obrigado, Edu. E viva o Brasil!

Claudio Renato disse...

Eduardo Goldemberg,

Você é uma pessoa que se aprende a gostar e não se desaprende mais. Conseguiu uma proeza dificílima: realmente aproximar afetos pela Internet, humanizar a grande rede. Fazer do boteco virtual sempre a convocação para o botequim real. Por você, nutro uma tremenda admiração, respeito e amizade.

Tudo de bom! "Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil!"

Daniel A. de Andrade disse...

Também estou nesse time. Pelo Brasil do Brasil!

Abração,

Daniel A.

Danilo disse...

Edu, você é essencial. Obrigado por tudo.

Filipe disse...

Que belo texto!

Bora pra cima dessas urnas, meu velho!!! Fizemos uma bela campanha!!! Você foi essencial, tenha certeza!

Vamos até o último minuto!!!

Abraço!!!

Allan disse...

Belo texto, de coração. Comecei a lê-lo e, curiosamente, me vinha à mente uma música.

Era "O Bêbado e A Equilibrista", na sempre voz de Elis. Grande surpresa ao vê-la ofertada ao final do seu grande texto.

Dia 31 será uma grande e bela batalha a ser ganha. E vamos que vamos com Dilma!

Abraços

Luiz Antonio Simas disse...

Quero que a gente ganhe a eleição pela diferença de um voto - o da Dani!

beijo

Bruno Quintella disse...

Edu: lindo, lindo, o seu texto. Inevitável não vir às lágrimas por conta de suas palavras e o que elas fazem enfileiradas por você. Mas há uma frase que me deixou aos prantos:

"E ficamos ali, abraçados, até que prometi levar a baixinha comigo, no domingo, pra apertar a tecla verde do 'confirma'."

Amigo, isso me faz lembrar das eleições de 1989, quando meu pai dizia: "Hoje é dia de votar, de mudar o Brasil. Dia de envolver um lenço vermelho no pescoço, ir com teu pai à cabine e marcar um xis no homem." Este homem era Leonel Brizola. E minha saudade, minha lembrança, vieram à tona, graças a você, quando me senti meio Ana Clara, quando você se sentiu meio pai. Enfim, assinar um xis ou apertar o verde é um singelo gesto para grandes mudanças. Obrigado por ter-me feito sentir esta emoção, tenho grande carinho e admiração por você.

Um beijo

Vania e Chris disse...

Edu, as lágrimas andam soltas por aqui tb... Hj já amanheci chorando com isso: http://bit.ly/c9Fz9w

Qto ao seu texto, desnecessário seria fazer qualquer comentário. Mas quero declarar aqui, a todos, o quanto gosto de vc, desde aqueles anos 80...
Vc é uma pessoa muito especial na minha vida.
Um beijo enorme pra ti e pra Dani.

Diego Moreira disse...

E o Buteco dá mais uma baforada repleta de axé na cara do Orixá Brasil - essa força viva da nação que desperta.

E mantém a tradição! O Buteco sabe ser briga de navalha e colo de mãe. A mão que dá a bofetada e a face que repousa no ombro amigo.

O buteco é humano, do jeito que Nietzsche ensinou.

E tenho a honra de partilhar esse momento, aqui e nas mesas dos bares vagabundos onde somos mais nós mesmos.

Estamos juntos. Beijo, querido.

Jose disse...

Grande trabalho Edu.
Parabens a voce e pela vitoria do Brasil.

Jose Reis.

Daniel disse...

Obrigado Edu!

O Santista, gordo, do Bom Retiro, aqui, tem o maior orgulho de ser seu amigo! Principalmente por me fazer chorar! Como no Rio-Brasília!

Beijo mano!

Betinha disse...

Lindo e emocionante texto. Tantas lembranças, tantas declarações de amor e esperança. Obrigada por não permitir que deixemos a vida passar sem percebê-la.
Beijos com carinho, admiração e gratidão,
Betinha