9.12.10

O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ - II

Prossigo hoje escarafunchando o baú que ganhei de presente de mamãe por ocasião da morte de minha avó, conforme lhes contei ontem, aqui.

Vovó tinha 8 anos de idade nesta impactante fotografia, tirada no dia 19 de fevereiro de 1933, um domingo, uma semana antes do início do Carnaval. A foto foi tirada no jardim da casa na qual moravam meus bisavós, Eugenio Augusto Monteiro de Barros (é o quarto da esquerda para a direita, na fila mais alta da fotografia, de camisa branca e braços cruzados) e Mathilde Veloso Monteiro de Barros (a terceira da esquerda para a direita, na fila mais baixa, de saia preta e camisa branca), na rua Marquês de São Vicente 186, na Gávea. A casa, é claro - como ocorre em uma cidade que pouco valoriza sua memória - não existe mais, e ficava quase em frente ao terreno no qual se localiza, hoje, a PUC. À certa altura (depois apuro isso com afinco) meu bisavô vendeu a casa para, sabiamente, mudar-se com a família para a Tijuca (e dizia-se Engenho Velho, à época).

Algumas coisas me chamam a atenção na fotografia que pode ser vista, maior, com um simples clique sobre ela. Antes, uma breve pausa.

Meus bisavós tiveram seis filhos, pela ordem de nascimento: Maria Florinda, que morreu muito nova, aos 15 anos, vítima do tétano (dia desses falo sobre ela, que inspirou minha avó, sua irmã, a dar seu nome à minha mãe), Francisco de Paula Monteiro de Barros (tio Chico), Carlinda (tia Linda), Silvio Augusto (tio Silvio), Mathilde (minha avó) e Carlos Henrique (tio Hique).

Havia (ainda há, parece) uma espécie de pacto entre os Monteiro de Barros: o primogênito de todo Eugenio Augusto seria obrigatoriamente um Francisco de Paula, e todo primogênito de um Francisco de Paula seria obrigatoriamente um Eugenio Augusto, e vejam vocês se isso não justifica, de certo modo, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que me persegue.

Vamos aos personagens da fotografia, sempre da esquerda para a direita: na primeira fila, a mais baixa, dona Lina, mãe de minha bisavó, avó de vovó, bisavó de minha mãe. A seu lado, dona Adelina. A seu lado, minha bisavó, Mathilde (elegante, elegante!, a dona da casa), mãe de vovó e avó de minha mãe. A seu lado, o doutor Oscar, personagem mítica da filha (falarei sobre ele em brevíssimo!). E a seu lado, fechando a fila, Francisco de Paula, o primogênito de meu bisavô, que se casaria, em 1942, com a tia Noêmia (sobre a tia Noêmia, recomendo vivamente um de meus textos preferidos sobre a família, DEBUTE NO ENGENHO NOVO, de primeiro de setembro de 2006, aqui). Notem que tanto o doutor Oscar quanto o tio Chico têm, nas mãos, uma caneca de cerveja preta.

Na segunda fila: não consegui descobrir quem são as duas primeiras. O baixinho que vem depois é o Soony, que está no colo de Alzira, sua mãe, irmã de minha bisavó, a tia Zirota (e sobre minha tia Zirota, a que voava, também recomendo a leitura de MINHA PRIMEIRA VIAGEM, de 24 de janeiro de 2008, aqui). Os demais não consegui identificar.

Logo acima da tia Zirota, erguendo um copo, está Carlinda, minha tia Linda. A seu lado, em pé, dona Mathilde, minha avó, com apenas 8 anos. O menino ao lado de minha avó é Carlos Henrique, meu tio Hique.

Os três primeiros da fila de cima também não consegui saber quem são. Logo depois, meu bisavô. A seu lado, tio Procter, inglês, marido de Alzira (minha tia Zirota), com Marylou no colo, irmã do Soony


Vamos ao que quero lhes contar hoje. Não... não quero lhes contar mais nada hoje. E que fiquem aí, registrados os personagens de muitas das histórias que lhes contarei nos próximos dias. Como quase todo mundo que mantém relação afetiva com seus ancestrais, tenho um corolário de histórias que beiram a ficção envolvendo toda essa gente aí da fotografia.

Desfiando esse novelo aqui, publicamente, aplaco a saudade que sinto de todos eles, dos que conheci e dos que me são vivos por conta da memória de tudo aquilo que ouvi ao longo de 41 anos de vida. Como diz um de meus mestres, Aldir Blanc, é na saudade "que tudo que amei sobrevive".

Até.

3 comentários:

PBL disse...

Edu.. Vc poderia fazer uma exposição, com as fotos da sua família, em algum buteco da Tijuca ! Uma homenagem Tijucana a seus ancestrais. Recomendo tmb, aproveitando seus bons relacionamentos, explicações sobre cada momento histórica das fotos e sambas relativos ao período de cada uma delas ! Ia ser um evento e tanto !
Abraços

Diego Moreira disse...

Os traços faciais de Alzira traduzem algo incontestável: você, sua mãe e sua avó herdaram as linhas faciais dos Veloso. É como dizem: tá na cara. Impressionante. A foto é comovente. Queria eu conhecer o rosto de uma tataravó e ter convivido com uma bisavó!

Abraço!

Elaine disse...

Acompanho seu blog meio na surdina, não sou de comentar. Nem mesmo comentei para lhe dar os pêsames pela passagem de sua avó, posto que vi como encarou tudo da melhor maneira possível e qualquer palavra soaria vã. Mas não posso deixar de comentar o quanto esses posts familiares são belos e interessantes. Muito obrigada por compartilhar essas histórias de família conosco!

Obs.: fui conferir a história da tia Zirota e ri às gargalhadas. Também tenho uma família relativamente grande (e suburbana, o que é ainda melhor), e o número e quilate das histórias que circulam na nossa são bem parecidas com as da sua. Deve ser o feitiço da Zona Norte. Abs.