23.1.11

MARIA DE LOURDES E O DELEGADO - IV

Maria de Lourdes abriu os olhos faltando pouco para o meio-dia e assustou-se - eis a verdade - com o cenário que lhe serviu de descanso. Passou a vista na Bíblia Sagrada e a fechou com fúria. Pôs o porta-retrato de volta sobre a cômoda, fez festinha no rosto dos pais, e dirigiu-se ao banheiro para tomar banho. Dormiu nua. Ainda enrolada na toalha foi à sala, recolheu os copos da véspera, deu um jeitinho na casa - tinha horror à idéia de ter uma empregada doméstica - e vestiu-se. "Vou almoçar no Salete...", pensou alto. Assim que abriu a porta deu de cara com dona Abigail. A imagem daquela moça de saia florida, camiseta de malha branca e chinelos brancos, os cabelos soltos e sem sutiã, fez tremer a vizinha, que disse:

- Parece que o Bigode tem um recado para você. - o tom era de ameça.

Maria de Lourdes, cheirando a alfazema, cabelos ainda molhados, desceu as escadas sem uma resposta.

Ao chegar à portaria - e ela passaria pelo porteiro sem dizer um "a" - Bigode levantou-se. Entregou o cartão que guardava no bolso e disse, olhando para o chão:

- O doutor delegado esteve aqui hoje cedo, dona Maria de Lourdes. Pediu que a senhora entre em contato com ele.

- Obrigada, Bigode. O Alex está aí?

- Foi à praia, dona Maria de Lourdes.

- Obrigada.

Tomou a calçada, virou à direita e, ao dobrar a esquina da Afonso Pena, carregou imaginariamente cerca de vinte cabeças que torceram o pescoço para acompanhá-la. Ela não anda, ela dança. Pernas perfeitas, um par de pés estonteantes, e aqueles cabelos molhados que davam a ela uma aura ainda mais sensual, como se isso fosse possível. Quadris igualmente perfeitos, seios firmes sob a blusa, ouviu mas fez que não ouviu:

- Mas tá demais essa menina, puta que me pariu! - um coroa bebericando uma dose de uísque no Bar do Chico.

Todos assentiram, ouviram-se pequenos ganidos e diversos "é verdade", até que entrou no Salete. Sentou-se sozinha numa das primeiras mesas, pediu duas empadas e uma Coca-Cola. Houve um falatório de garçons e de fregueses, e um deles levou um tapa na orelha da mulher:

- O que é que foi, Adalberto? Tem idade pra ser tua filha, cachorro!

Maria de Lourdes sorriu o mais bonito dos sorrisos, ouviu a reprimenda. Iluminou o salão. Intimidou a nesga de sol que atravessava o toldo. Ergueu o queixo, ajeitou o cabelo e quando deu a primeira mordida na empada, lenta, pensada, teatral, o pobre do Adalberto soltou um "meu Deus!" que fez a mulher abandonar a mesa. O casal morava no quarto andar do mesmo edifício. Passou por ela e disse:

- Já procurou o delegado, Maria de Lourdes? - e tomou o rumo de casa.

Adalberto foi atrás, deixando duas notas de 50 sobre a mesa.

- Desculpa, viu?

Maria de Lourdes riu feito Exu-Caveira.

Comeu as duas empadas, pediu um filé de frango com salada de tomate, outra garrafa de Coca-Cola, pagou a despesa e decidiu que iria dar uma caminhada na Praça Afonso Pena. De lá mesmo ligou, do celular, para a delegacia. Tinha o telefone vermelho do delegado. Deu-se o diálogo:

- Alô? Doutor Uzeda? É Maria de Lourdes, da Pardal Mallet... Aconteceu alguma coisa? Soube que o senhor esteve no prédio hoje pela manhã... - fazia voz de criança.

- Isso é o que eu quero perguntar a você, moça. Podemos trocar meia-dúzia de palavras? Pessoalmente?

- O senhor está me deixando nervosa, delegado...

- Rotina, Maria de Lourdes, rotina. Posso vê-la hoje? Fico aqui até umas cinco da tarde...

Ela sabia que alguém - não sabia quem - tinha comentado com o delegado sobre a novidade sonora da véspera. Disse:

- Pode, claro. Mas...

- Pois não.

- Ah, delegado... Não me sinto bem na delegacia, sabe...?

- Posso voltar à sua casa, Maria de Lourdes. Pela manhã não consegui encontrá-la. Toquei sua campainha durante uns bons minutos...

- Estava dormindo, doutor. Pode ser, então. A que horas?

- Cinco?

- Cinco.

- Até às cinco, menina.

- Um beijo, delegado... - e ele começou a suar do outro lado da linha.

O passeio foi de pouco mais de meia-hora. O bastante para enlouquecer os aposentados da pracinha, para tirar do prumo os clientes do Boteco do America, do Salão America, de toda a assistência que viu a moça passar. Os passeios de Maria de Lourdes, importante que se diga, são como os mais tenebrosos fenômenos naturais: há sempre vítimas, apaixonados repentinamente, neguinho que jura largar mulher e filhos, batidas de carro, trombadas entre pedestres, um troço de louco.

Ao chegar ao edifício, pouco antes das duas e meia, disse ao Bigode (e lá estavam as velhas, de plantão):

- Boa tarde. Às cinco o delegado vem me ver, tá? Pode deixar ele subir. E diga ao Alex que mais tarde eu procuro por ele.

Subiu afrontando as idosas com aquela beleza torrencial.

Às cinco em ponto, Uzeda na área. Foi recebido com honras de Chefe de Estado. As três velhas, e outras e outros vizinhos se acotovelavam no pequeno jardim interno, o cheiro de curiosidade tomava conta da pacata rua. Deu um "boa tarde" geral, foi abrindo caminho com gentileza e ao avistar o Bigode recebeu o anúncio:

- Ela avisou que o senhor viria, doutor. Pode subir.

Ele agradeceu e tomou o elevador. Ao aproximar-se da porta, a mesma se abriu:

- Muito prazer, delegado. Fique à vontade.

Maria de Lourdes vestia um short cor-de-rosa e uma blusinha de algodão, branca. Sem sutiã.

- Com licença, Maria de Lourdes... - entrou pigarreando.

A conversa não levou mais do que 40 minutos.     

3 comentários:

Reynaldo Carvalho disse...

Termina logo, Eduardo "Zéfiro" Goldenberg !!!!!!!!!!!!!!

brunoapx disse...

Qualé Edu...
Tá fazendo igual a novela da Globo, terminado no suspense (risos)
Tou acompanhando.....

E os desdobramentos do Adeus do Ernesto ??

Rodrigo disse...

Olá Edu, sou o Rodrigo (cunhado do Simas) não sei se vc lembra. Rapaz descobri o seu blog e as histórias são ótimas. Baixou o Nelson Rodrigues em vc hein ? Só pra satisfazer minha curiosidade com a Maria de Lourdes (não paro de imagina-la), se fosse real seria parecida com que mulher ? Só consigo pensar na Índia Potira... Lembra ? Grande abraço