24.1.11

MARIA DE LOURDES E O DELEGADO - V (FINAL)

A conversa entre o delegado e Maria de Lourdes foi breve. E foi breve porque Uzeda foi prático. Contou, timtim por timtim, sobre o telefonema que recebera de "uma vizinha". Disse, com todas as letras, que estava ali apenas para dar uma satisfação ao apelo da senhora que parecera em pânico diante do ocorrido naquela noite na qual os seus patéticos pedidos  - "me chama de assassina!" - assombraram a vizinhança. Disse, mais, que o caso estava encerrado do ponto de vista policial; que não havia prova alguma capaz de fazê-lo reabrir as investigações; que, entretanto, já que ele estava ali, não custava procurar saber o porquê de tão estranho apelo durante a noite. Disse isso sem conseguir esconder o riso que escapava pelo canto da boca. Os olhos do delegado não desgrudavam do corpo de Maria de Lourdes. Ela, por sua vez, deu de chorar. Enxugou a lágrima do olho direito com a mãozinha direita fechada, como se fora um bebê. Fungou. E disse:

- Não sei, delegado... Não sei o que foi que me deu...

E daí vocês todos ficam a pensar: e aí? E aí? E aí?

E aí que nem todo final de história é imprevisível.

Maria de Lourdes continuou a chorar, ajoelhou-se diante do delegado e o delegado pensou "ajoelhou, tem que rezar".

Foi engolido pela menina. Ergueu-se, depois de uns 15 minutos, ergueu e abotoou a calça, ajeitou o cinto - recusou, com medo do barulho, o convite feito por ela, de boca cheia, "me bate com o cinto, me bate" - e pediu um copo d´água. Ela foi a cozinha, limpou a boca com um pano de prato, e quando voltou à sala trazendo a água, perguntou:

- O senhor falou com o Alexandre sobre isso? Ele ficou muito assustado...

Ele fez um "arrã" durante um gole.

- Ele... ele... ele me acusou de alguma coisa?

- Negativo.

Fez força para disfarçar o alívio que varreu sua coluna.

Ele tomou a direção da porta. E disse, grave:

- Juízo, menina.

Ela piscou o olho, abriu a porta e acompanhou com os olhos o delegado dobrar o corredor para descer as escadas. Foi para a janela.

Viu quando Uzeda surgiu no jardim interno cercado pelas vizinhas em estado de excitação agudíssima. Não conseguiu ouvir nada mas ficou ali, com um sorriso escancarado acompanhando a cena. Ele tomou a direção da delegacia e quando sumiu, na esquina, gargalhou feito Exu Caveira chamando a atenção das condôminas.

À noite, subiu Alexandre, aliviadíssimo.

E é isso.

Há mais, há muito mais para ser contado sobre Maria de Lourdes.

Com o tempo, trago ela de volta pra cá.

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