22.1.11

NOVIDADES, A REVIRAVOLTA - III

O menino Alexandre não pregou os olhos, a noite inteira. Estava, portanto, acordado quando o pai acordou, o único porteiro daquele edifício. Moravam num pequeno apartamento no terreno dos fundos, e às 7 da manhã, enquanto preparava o café, seu Bigode perguntou ao filho, em estado de choque num dos banquinhos à mesa:

- Que cara é esse, moleque? Parece que viu assombração. - de costas.

- Pior que isso, pai.

Bigode desligou o fogo.

Era um pai atencioso, preocupado, e sobretudo um empregado dedicadíssimo. Não gostava nada daquela história entre o filho e Maria de Lourdes, a órfã, mas acatara, na condição de empregado, o aviso que lhe dera a condômina do 201 - "eu estou apaixonada pelo seu filho, algum problema?". De mais a mais, achava que o filho "estava bem grandinho" (expressão usada com freqüência).

- O que houve, filho?

- Maria de Lourdes, pai. Ontem, enquanto namorávamos, pediu para que eu a chamasse de "assassina".

O velho Bigode, que no fundo tinha orgulho da performance do filho - os gritos da menina davam a ele a certeza de que o filho era um garanhão - perguntou:

- A troco de quê?! - e fez o sinal da cruz.

- Não sei, pai. Mas fiquei com medo daquilo.

Efetivamente Alexandre não pregara o olho, assombrado com a cena que protagonizara. Maria de Lourdes, fora de si, implorando pelo grito inimaginável, depois ajoelhada diante da fotografia dos pais mortos, e aquilo deixou o surfista "com a pulga atrás da orelha", foi o que ele disse ao pai.

- Vá dormir, filho. A menina não bate mesmo muito bem. Você está impressionado... Ou você acha que...

- Não sei, pai. Não sei.

Às 07h30min, Bigode ancorou na portaria modestamente decorada.

Dona Leontina e dona Abigail, moradoras do segundo andar, estavam sentadas no banco de praça que havia no jardim interno. Saltaram, juntas, e estacaram diante do empregado:

- Chamamos o delegado da 18a., seu Bigode! - disseram juntas.

Antes que ele esboçasse reação, a mais velha disse, abanando-se com o leque:

- Ele precisa, ao menos, saber o que aconteceu. Ontem à noite a menina passou dos limites...

A outra assentiu, com a cabeça. E completou:

- Assumiu o crime! Assumiu! Eu nunca acreditei nesse trololó de suicídio!

- Calma no Brasil! As senhoras estão exagerando... - tentou contornar, o Bigode.

Chininha, da janela do primeiro andar, sem que lhe fosse pedido palpite, disse olhando para baixo:

- Exagerando? A demônia esperou um ano e fez a confissão! Aceitam um bolinho?

As duas, em estado de êxtase, disseram que sim. E em menos de 10 minutos eram três as velhotas esperando o delegado.

Ele chegou a pé, da Visconde de Iguatemi, e flagrou as três mastigando o bolo. De boca cheia, Abigail ergueu as mãos céu:

- Graças a Deus!

As outras duas:

- Graças a Deus!

Ele tirou os óculos escuros, recusou um quadradinho do bolo, e sentou-se no banquinho:

- E então? O que houve de tão grave? Qual a reviravolta no caso, dona Abigail? - perguntou em nítido tom de deboche.

O delegado, Uzeda, até que achou divertido atravessar a Barão de Iguatemi, beber uma cerveja gelada no Aconchego Carioca, atravessar a Vicente Licínio, dobrar à direita na Campos Sales e entrar, à esquerda, na aprazível Pardal Mallet, para ouvir a "novidade sobre o caso do suicídio do casal da Pardal Mallet" que aquela senhora, aflita, prometera por telefone.

As três, alternando as atuações, relataram ao delegado os fatos (auditivos) da noite da véspera.

E eis o fato: Uzeda fizera um esforço tremendo para disfarçar os sentimentos que foram brotando: uma excitação imediata diante da lembrança da estrutura física da menina, uma inveja profunda do filho do porteiro, e apenas o suor, que gotejava de sua testa, denunciava algum efeito diante do relato das três. As três perguntaram em uníssono:

- E aí, doutor?

Ele fechou os olhos, lambeu os beiços, e disse, em direção ao porteiro:

- Seu filho está aí, seu Bigode? - ele fez questão de checar o nome do porteiro antes de sair da delegacia.

- Está sim, senhor.

- Posso vê-lo?

- Pode sim, doutor. Venha comigo, por favor.

O pai bateu à porta e deu de cara com o filho na mesma posição, no banquinho à mesa:

- Bom dia, filho. O doutor delegado quer falar com você...

- Mas, pai... você chamou o delegado?! - a expressão era de pânico.

O próprio Uzeda, depois de pedir licença e entrar no pequeno imóvel, disse:

- Não, Alexandre. Foi a dona Abigail... Mas eu já te explico tudo. O senhor pode nos deixar a sós, seu Bigode?

Ele sentou-se num banquinho ao lado do menino, contou sobre o telefonema, sobre o relato das três senhoras, e Alexandre foi lacônico:

- É. Foi isso mesmo. Fiquei com medo... Mas acho que foi maluquice dela, sabe? Não posso acreditar que...

Uzeda o interrompeu:

- Você gosta da moça, Alexandre?

- Gosto.

- Apaixonado? Há quanto tempo vocês estão juntos?

Ele foi sincero. Não havia paixão, havia tesão - "e muito", ele emendou. Contou sobre a noite da véspera da morte dos pais - e as investigações não encontraram nem sombra de qualquer indício capaz de complicar a vida do menino -, sobre o afastamento de Maria de Lourdes durante os meses em que esteve com o tio hospedado em sua casa, sobre o começo do que ele chamou de "transa entre nós", foi até detalhista sobre o comportamente da órfã durante o sexo e Uzeda, um homem na casa dos 50 anos, afagou a cabeça do garoto assim que se levantou. Excitadíssimo - "que potranca, meu Deus!", pensou - disse, apenas:

- Vou falar com ela. Relaxe, viu? E nossa conversa morre aqui.

- Arrã. - foi só o que ele disse.

Uzeda voltou à portaria. Bigode nervoso. Abigail, Chininha e Leontina excitadíssimas. As três, ao mesmo tempo:

- E aí, doutor?

O porteiro, cabisbaixo, foi o eco:

- E aí, doutor?

Uzeda nem se dirigiu a elas. Apoiando as duas mãos na mesa do porteiro, anunciou:

- Vou subir pra conversar com a moça, O.K.?

Ele fez que sim. Acompanhou o delegado até o elevador e perguntou baixinho, fora do alcance das três senhoras:

- Tudo bem com o menino, doutor?

- Ótimo! Ótimo! - e deu dois tapinhas no ombro do empregado pouco antes de entrar no elevador.

Tocou a campainha e ajeitou-se. Estava - é um detalhe importante - excitadíssimo.

Maria de Lourdes dormia em posição fetal abraçada ao porta-retrato dos pais. A seu lado, a Bíblia Sagrada, a tal de páginas em alta gramatura, douradas, aberta em Números, 35:30: "Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra.".

O delegado tocou exatas cinco vezes com intervalos de dois minutos entre um toque o outro. A moça não acordou. Ele desceu de escadas e disse ao porteiro - as três velhotas cercando o empregado:

- Ela pode ter saído antes do senhor pegar no serviço, certo? Ou pode estar dormindo. Peça a ela que me procure. - e estendeu seu cartão.

Maria de Lourdes só acordou ao meio-dia.

Um comentário:

PBL disse...

Edu, a 18° é na Barão de Iguatemi ! Inclusive eu moro nessa rua !!!