19.1.11

A SESSÃO DE DESCARREGO DE MARIA DE LOURDES - II

Menos de seis meses depois da morte de Otília e Alonso, o delegado da 18a. Delegacia Policial, da Praça da Bandeira, deu o caso por encerrado. Suícidio. A vizinhança, é verdade, custou a crer. Afinal, aquele casal religioso, temente a Deus, de formação moral sólida, não combinava com a mais romântica das despedidas. E deu-se, de fato, por conta da suspeita de suicídio, um fuzuê danado na Pardal Mallet na manhã da tragédia. O IML recolheu os corpos, peritos vasculharam o apartamento, e a morte por conta do vazamento do gás não podia mesmo ser atribuída àquela menina, 21 anos de idade, pacatíssima, a única que vivia naquele apertado dois quartos na Tijuca. Atônita, Maria de Lourdes acompanhou, aos prantos, o recolhimento dos cadávares e deu, na medida do possível, seu depoimento (fora chamada outras duas vezes à delegacia) comovido e convincente. Depuseram também o porteiro do edifício, o pastor da igreja freqüentada pelo casal, os vizinhos do segundo andar, a diretora do colégio da órfã, alguns funcionários das padarias de propriedade de Alonso e a batata já estava mais que assada quando decretou-se: foi, mesmo, suicídio.

Um tio de Maria de Lourdes, irmão mais velho de Otília, Reginaldo, viúvo e advogado aposentado, que vivia em Mar de Espanha, em Minas, chegou para o enterro e passou exatos seis meses com a sobrinha no Rio de Janeiro cuidando da papelada. Filha única, herdeira universal, Maria de Lourdes herdou as três padarias do pai (mantidas em sociedade com Otília), vendidas por um bom dinheiro para um consórcio que se formou entre os gerentes das três unidades, coisa de quase um milhão de reais. Herdou, ainda, o apartamento da Pardal Mallet, uma casa de veraneio na Ilha do Governador (também vendida) e o saldo bancário, polpudo, do suicida (que não mantinha conta conjunta com a esposa). Ultimado o inventário, que tramitou rapidíssimo em razão da simplicidade da sucessão, Reginaldo voltou para Mar de Espanha deixando a sobrinha à vontade para procurá-lo sempre que precisasse. Voltou, diga-se, extasiado com a beleza da menina (e sentindo-se ligeiramente incomodado com seus próprios pensamentos). Passou a ter uma frase-padrão com os amigos no botequim:

- Minha sobrinha carioca... vou lhes contar... uma coisa! Uma coisa! - e dava-se a masturbação mental coletiva naquela cidade de moças sem-jeito.

Maria de Lourdes passou os seis meses subseqüentes à tragédia ao lado do tio. Trocou - o quê?! - uma meia-dúzia de palavras com um, com outro, com uma vizinha, com irmãos da igreja que foram fazer uma visitinha, e mesmo com Alexandre, o filho do porteiro, permitiu-se apenas um "obrigada" diante do protocolar "meus pêsames" no final daquela tarde. Saiu para fazer compras (mudou o guarda-roupas, antes recatadíssimo), para inteirar-se da rotina com os bancos, passeou bastante mostrando para o tio a cidade que, a bem da verdade, ela bem pouco conhecia também. Passou, entretanto, os seis meses, fervendo por dentro. Não esquecera, nem por um minuto, a volúpia insana daquela manhã fatídica. Guardou-se, porém, com a resignação e com a máscara que apreendera naqueles 21 anos de cultos e cultos e cultos e cultos. O tio fora embora num domingo à noite. Já na segunda-feira - as notícias na Tijuca correm como água rio abaixo - Maria de Lourdes recebeu a visita do pastor da igreja que freqüentava com seus pais. Queria, o canalha, convencer a menina a doar para a igreja o dízimo da herança. Foi posto pra correr por uma possessa. Disse atrocidades ao pastor enquanto o sujeito, de terno e gravata, pasta executiva na mão, aguardava o elevador. E bateu a porta com um ódio que os vizinhos, assombrados com o espetáculo, nunca tinham visto brotando daquela moça.

Na segunda à tarde, quase à noitinha, postou-se na janela. Esperou Alexandre aparecer e repetiu o "psiu" de seis meses antes. O rapaz subiu. Deu uma desculpa qualquer ao pai - "vai ver ela precisa de ajuda" - e já chegou em ponto de bala diante da porta do apartamento. Aquela potranca - e mais potranca que nunca, uma égua de haras paulista - já o aguardava apenas com um camisão. Fechou a porta e abriu os lábios, que sugaram Alexandre de uma maneira que só os seis meses de hiato poderiam explicar.

Poucos minutos depois, bate à porta uma das vizinhas de corredor. Maria de Lourdes abre apenas a portinhola, apenas o rosto à mostra:

- Tudo bem, filha? - disse a velha.

- Te chamei? O que é que tu quer? - e deu de rir, feito Exu-Caveira, batendo a portinhola com o mesmo ódio oferecido ao pastor.

A cena deu-se, dia após dia, sem tirar nem pôr. Houve, é evidente, evoluções. E revoluções. Maria de Lourdes disse, com todas as letras, "eu estou apaixonada pelo seu filho, algum problema?", e fez com que o porteiro nunca mais perguntasse nada ao filho. Adestrando suas fantasias como quem adestra um cão, a menina passou a fazer uso de serviços delivery, para tudo: pizza aos domingos, galão de água duas vezes por semana, galeto, comida japonesa, comida chinesa, flores, e ela engolia, despudoradamente, os entregadores que satisfaziam seu apuro visual. "Só um boquetinho, coisa rápida", ela dizia. Não se sentia traindo o namorado desse jeito, ajoelhada e com pressa. Diz-se até que na pizzaria da Doutor Satamini, aos domingos, havia grossa pancadaria entre os motoqueiros já que todos queriam servir a "boca do 201 da Pardal Mallet".

Mas o pior deu-se quando Maria de Lourdes percebeu certo gosto pela dominação. Um dia pediu um tapa ao Alexandre. O surfista já curtia o troço e sentou a mão na carinha linda da potranca. Mais à frente, pediu que ele a xingasse. A princípio o repertório era o trivial. Um "piranha" pra cá, um "puta" pra lá, um "cachorra" com o som do estalo do bofetão por trás, um "vadia", por aí.

A agressão verbal, o xingamento (e ela exigia o tom de ódio na voz do rapaz), a purificava. A submissão, a exposição voluntária para a agressão ainda que teatral, a sacralizava. E assim seguia a rotina daqueles dois.

Eis que no dia do primeiro aniversário de morte dos pais da menina, quando ela completaria 22 anos, quando sua fama de devassa subia e descia as escadas do edifício, ganhava as calçadas, as esquinas, o entorno, o bairro, deu-se o inesperado. Poder-se-ia dizer, até, que a vizinhança já estava habituada (ainda que horrorizada) com aquela trilha sonora, com aquela enxurrada de baixo calão. O choque maior, entretanto, veio naquele dia.

Alexandre subira para uma comemoração especial. A moça recusara o convite para um jantar - "faço questão que seja aqui". Após os salamaleques, após o presente que o garoto comprara, após a garrafa de espumante que beberam juntos, foram para a cama, ela já entrelaçada no tronco do surfista, que sentia o calor úmido da parceira na altura do abdomen, ele já sem camisa, ela praticamente nua. Deitaram, e pela primeira vez, na cama mantida no quarto do casal suicida. Sobre a cômoda, diante do pé da cama, um porta-retrato fazia com com que ambos, pai e mãe, testemunhassem a cena. Apoiado, diga-se, numa Bíblia Sagrada, dessas com páginas espessas e douradas. O troço pegava fogo. As janelas, mantidas abertas de propósito por Maria de Lourdes, apenas a cortina impedindo o alcance dos olhos alheios. Começou o espetáculo:

- Sua vaca! - e explodia um tapa.

Trepavam, suavam, urravam, e ele mantendo a linha:

- Vagabunda! Cadela suja! - outro bofetão de cinema.

Prestes a gozar, olhos vidrados, unhas cravadas nas costas saradas do surfista, Maria de Lourdes pediu aos gritos:

- Me bate, Alexandre! Me bate! Na cara! Na cara!

Ele, fora de si, atendeu.

- Com mais força! Mais ódio! Me cospe! Me cospe! - tudo atendido.

Gozaram juntos. Ele uivava como um lobo dentro dela, e ela também. Tinha, é preciso que se diga, orgasmos múltiplos, a órfã. E enquanto gozava, gemia, mordia o bíceps de Alexandre, pediu com a voz mais rouca, transfigurada (ele quase não reconheceu):

- Me chama de assassina, Alexandre. De assassina! As-sas-si-na!

Ele livrou-se dela num sem-pulo. De pé, ao lado da cama, vendo Maria de Lourdes em estado de êxtase absoluto, os olhos revirados como os de uma boneca de pano em frangalhos, vestiu-se às pressas e pode perceber quando ela, de joelhos, sem parar de gritar, passou a olhar fixa e insanamente para o retrato dos pais. Foi descendo as escadas, aos atropelos, ouvindo "me chama de assassina!, de assassina!", até que cederam os apelos inéditos, que deram vez às gargalhadas mais agudas que ele jamais ouvira - feito Exu-Caveira.

Não se falava noutro assunto naquele condomínio, na manhã seguinte.

4 comentários:

Arthur Tirone disse...

Meu Deus!!!

Arthur Tirone disse...

Meu Deus!!!

Diego Moreira disse...

Ah!.. O Malandro desceu a escada... Custava atender o pedido da moça?

M. Vidal disse...

PQP, bom demais, não fode.
Já tem neguinho no Chico perguntando pela tal...
Beijo