3.2.11

ARREMESSO AO PASSADO - MAIS CONFISSÕES

Desde anteontem que estou para lhes contar sobre as expressões que minha bisavó usava e que tanto marcaram minha infância. Era minha intenção fazê-lo quando comecei a escrever no dia primeiro - aqui - mas fui sendo sugado pelo ciclone da memória e acabei contando a história de meu encontro com Adele Fátima mais de 30 anos depois de tê-la visto, arrebatadora, nas páginas de uma revista Amiga que encontrei na casa de meus avós - quando eu era um menino de calças curtas, camisa de listras e conheci os encantos da quiromania. Ontem, dia de festa no mar - aqui - mais uma vez não consegui. Fui enredado pelos encantos de Janaína e me perdi nas profundezas das emoções que me moldaram. Vamos a elas, hoje. Estou, confesso, excitadíssimo com a possibilidade de lhes contar sobre isso, muito mais - é evidente - por conta do que isso provoca em mim do que pelo simples agrado a cada um dos meus poucos mas féis leitores. Não são expressões, exatamente, mas isso é o que menos importa.

Minha bisavó morava numa vila - isso eu já lhes disse. Morava com meus avós e com sua irmã, tia Idinha. Ela passava - se é ou não a verdade, nada interessa, vale o que tenho em mim - grande parte do dia na janela. Bastava passar uma gostosa (dou-me conta, hoje muito mais, do quanto eram gostosas algumas das moças que iam e vinham) e ela dizia em direção à irmã:

- Lá vem aquela sirigaita.

E eu lhes pergunto: quem ainda usa a palavra "sirigaita"?

Vem a cena à minha mente: minha bisavó e sua irmã usavam leque (ninguém mais usa leque). Podia estar quente, chovendo, um frio dos diabos, lá estavam as duas de rede no cabelo e leque numa das mãos. O leque gerava uma série de códigos que eu ia pescando aos poucos. A situação era grave? Fechava-se o leque num átimo de segundo e dava-se uma pancadinha na palma da outra mão. Fofocavam as duas? O abanar era frenético.

E as refeições?

Vovó tinha uma mesa muito antiga, dessas que têm a possibilidade de serem abertas no meio. De dentro da fenda aberta saltava outro tanto de madeira e a mesa crescia. Pois se havia balbúrdia à mesa - e sempre havia balbúrdia à mesa - vinha o grito:

- Silêncio no tribunal! Silêncio no tribunal!

Acaba de me ocorrer que talvez, por isso, eu tenha seguido a carreira de advogado.

Noutras ocasiões, a blague era diferente:

- Calma no Brasil!

E tia Idinha completava, ensaiadíssima:

- ... que a Europa está em guerra!

Minha bisavó não me dava bronca, não me dava esporro: os verbos conjugados eram outros.

- Vou ser obrigada a ralhar contigo!

Ou então:

- Vou te passar um pito, menino!

Eis uma das provas de meu evidente desequilíbrio: estou aqui escrevendo e ouço, com direito a eco, a voz da minha bisavó.

Dona Mathilde, minha bisavó, era torcedora do Botafogo. Mantinha na cozinha de casa um escudo com a estrela solitária desenhada com palitos de fósforo. Era dia de jogo do Botafogo. Se caía num domingo, lá estava também o tio Hique (que recebia o caboclo Tupiara, como lhes contei ontem), botafoguense também. E o jogo era ouvido no radinho de pilha. Gol contra o Botafogo? Ela era implacável:

- Papagaio!

Pois bem: deu-se em mim a guinada do tempo, o arremesso violento em direção ao passado e quero lhes contar uma das mais inacreditáveis histórias envolvendo a família (as expressões de minha bisavó foram apenas o pavimento pra que eu voltasse pra bem longe). Omitirei os nomes, todos trocados. Mas a história é 100% verdadeira e parte do anedotário coletivo dos Monteiro de Barros, dos Montenegro Braga, dos Goldenberg, todos unidos pela mágica da vida.

Angelina tinha uma irmã surda-muda. Ativíssima, ativíssima! Tinha, é verdade, muitos outros irmãos, e como Paulina - a surda-muda - era uma pedra no sapato, vivia sendo arremessada pra lá e pra cá. Passava uma semana na casa de um irmão diferente. Dava-se o rodízio. O troço era sempre assim: chegava na casa de um no domingo à noite e lá ficava até o domingo seguinte. E quando chegava o domingo seguinte era uma festa:

- Graças a Deus! Paulina agora só daqui a um mês e meio!

Pois num certo domingo desembarcou a Paulina na casa de Angelina. O domingo já foi um inferno. Na segunda-feira pela manhã - a casa estava em obras e Angelina não contou com a compreensão de nenhum dos irmãos - "sai pra lá, segura que a batata é tua!" - a surda-muda acordou perto do meio-dia. E acordou, como se diz, com a macaca. "Mmmmmmmmmm" pra cá, "mmmmmmmmmm" pra lá, aqueles gestos que ninguém fazia muita questão de entender e a paciência de Angelina no limite.

Foi quando teve a idéia que reputou brilhante.

Chegou-se pro pintor, um homem de meia-idade, e foi franca, sincera, direta:

- O senhor pode me fazer um favor?

- Pois não, dona Angelina. Pode dizer.

- Será que o senhor se importa de comer a minha irmã? Ela está impossível!

E esfregando as mãos, com os olhos semi-cerrados, completou o assédio:

- Dá um sossega-leão nela, dá? Passa-lhe o rodo! Crava esse pincel nela! - e deu de gargalhar feito uma louca, dando tapinhas no ombro do pobre-diabo.

Seu Onofre, o pintor, não achou má-idéia. Já havia comentado com o eletricista que a surda-muda "dá um caldo".

Angelina saiu pra almoçar piscando o olho em direção ao seu Onofre:

- Conto com o senhor, hein! E prometo uma gorjeta gorda se o senhor acalmar a Paulina!

Horas depois voltou pra casa.

Seu Onofre, em pé na escada, fez que "sim" com a cabeça. E ela, aflita:

- Cadê ela? Cadê?

Ele apontou pro corredor e disse lixando a parede:

- No quarto. Dormindo. Parece morta.

Lá estava Paulina. Dormia - esse detalhe é importante - com um sorriso nos lábios. Braços abertos, pernas à vontade, e assim ficou até umas sete da noite. Jantou em silêncio, o sorriso fixo nos lábios, como uma máscara. E foi assim até o domingo seguinte, quando foi despachada para a casa de outro irmão.

Vamos ao final da bulha (outra expressão de minha bisavó).

Nove meses depois nasceu um menino saudabilíssimo, vendo, ouvindo e falando.

Investiga daqui, investiga dali, chegou-se à verdade dos fatos.

Paulina hoje mora com Angelina - os irmãos não perdoaram a irmã por conta da insanidade - e com Roberto Carlos, o filho do pintor.

Na escola, em tenra idade, o menino contou, é claro, a história pros amiguinhos de classe (sabem como é criança...).

O duro mesmo é o apelido que ele carrega até hoje, já burro velho: Suvinil.

Até.

2 comentários:

Leonor Macedo disse...

Delícia de texto!

Cazé disse...

Minha boa e velhinha mãe, cujos pais moravam na Heitor Beltrão, entre a São Francisco Xavier e o hospital, em um predinho de três andares que resiste até hoje, não abre mão do leque. Carrega dois na bolsa, um para uso próprio e outro para socorrer alguém. Abraços.