28.2.11

COMIDA DI BUTECO 2011 VEM AÍ

Eis que estamos às vésperas do Carnaval e, mantendo uma tradição já de muitos anos, o malfadado festival Comida di Buteco começa a pôr as mangas e a maionese de fora. E quem me lê sabe o quanto eu, desde sempre, sentei a borduna na iniciativa: basta uma clicada aqui e o Google abrirá diversas possibilidades para que você, que nunca leu nada meu a respeito do troço, entenda o porquê de minha aguda implicância com o projeto (escrevi "projeto" e tive ânsia de vômito). Mas vamos em frente.

Antes de continuar a escrever, dêem uma olhada no slogan (nova pausa para nova ânsia) do festival em 2011: 


Vou escrever para que o nojo emerja (leiam em voz alta e sintam a boçalidade da idéia): "Eu boteco, tu botecas, nós comida di buteco".

Em 28 de maio de 2010 escrevi uma carta aberta dirigida aos pilotos do trator de botequins, aqui. O fiz porque - a leitura do texto deixa isso claro - uma das organizadoras do negócio, Sra. Eulália, ligou-me indignada, no dia 13 de maio de 2010, com minhas críticas (todas sempre muito bem fundamentadas, modéstia à parte), ficou de marcar uma conversa olho no olho para que ela expusesse suas razões e nada aconteceu. Ou seja, agiu como agem quase todos os que são criticados: tratam de desqualificar o crítico, as críticas. Não suportam experimentar a não-adulação.

Este ano, em 2011, vai ser mais divertido expôr para vocês o quão maléfico é o festival que se orgulha disso que segue abaixo:

"Em 2008, o concurso entrou no conceituado Guia 4 Rodas (Editora Abril) e passou a ser realizado em diversas cidades do interior de Minas Gerais e em outros estados. Neste ano também, dois novos sócios se uniram ao projeto: Ronaldo Perri e Flávia Rocha, com a missão de expandir o conceito a outras praças."

Notem bem: o Comida di Buteco é um "conceito", e isso já diz muito sobre o nascedouro da idéia e seus objetivos.

"Os números atuais do Comida di Buteco impressionam, o evento está presente em 11 cidades e, só em Belo Horizonte, o público participante é estimado em cerca de 800 mil pessoas por edição, com mais de 160 mil votos nos pratos participantes (Vox Populi / 2010)."

Os números do Big Brother Brasil, o maior lixo da recente história da TV brasileira, também impressionam.

"A festa "A Saideira" – que tradicionalmente marca o encerramento e a premiação do concurso – se tornou um dos eventos mais esperados da cidade e recebe mais de 26.500 botequeiros nos dias em que é realizado."

A festa "A Saideira", no ano passado, trouxe o Bob´s para servir os otários que conjugam o verbo proposto pelo festival em 2011.

"O Comida di Buteco se tornou também um fenômeno de comunicação. Em 2010, a mídia espontânea do projeto superou o valor de 16 milhões de reais, tendo o Comida di Buteco figurado nos principais veículos da mídia nacional e importantes publicações internacionais, como o NYTimes e La Nacion."

Basta, não?

Afinal de contas, buteco e New York Times, buteco e La Nación, têm tudo a ver...

Seria cômico se não fosse trágico.

Volto - é claro - ao tema.

Até.

7 comentários:

Deborah Leão disse...

Sou de BH, e lá essa história já se arrasta há alguns anos.

Volta e meia planejávamos ir a algum buteco da nossa preferência, para então lembrar - "ah, que droga, está na época do Comida di Buteco". E por isso sabíamos que estaria lotado de um público nada habitual, que o serviço seria ruim, e os preços não seriam os de sempre.

Torcia sempre para que os meus favoritos não participassem. Além de ter que passar um mês sem aparecer lá, era comum, depois, que a soberba tomasse conta, e o lugar virasse mais boutique do que botequim.

Cynthia disse...

Oi, Edu.

Esse texto me lembrou que eu conheci o Buteco há um ano mais ou menos, na época do início do "projeto" do ano passado. Não porque eu seja fã ou tivesse a intenção de fazer todo o circuito, já que a enorme maioria dos "botecos" participantes fica na Zona Sul, bem longe pra mim, mas por pura curiosidade sobre o que o Aconchego estava apresentando. Mas enfim, estou divagando. O que eu achei mais ridículo foi o fato de que cada estabelecimento participante era estimulado, ou obrigado, sei lá, a incluir maionese (!) no prato e a criar um outro usando Doritos (!!!) como ingrediente. Até como o salgadinho de vez em quando, mas fazer propagandagem assim fora de contexto e num ambiente onde não tem nada a ver, usando o alcance do bar dos outros, parece que na base da coação... Achei asqueroso.

Abraço.

Diego Moreira disse...

Relaxa que isso piora. Qualquer dia o slogan vai ser:

- Venha dar sua demonstração de botequismo!

Daniel Banho disse...

A festa "Saideira" do ano passado foi uma das maiores furadas que eu já me meti. E só fui porque um amigo resolver comemorar aniversário naquilo.

Fernanda disse...

Olha só Edu, achei teu texto muito bom!

Buteco é coisa séria, para se deixar quieto e não balançar muito. Como uma planta frágil. Se mexer muito, ou mudar de lugar, afeta a raiz.

Buteco é para quem entende, e fala sua própria lingua. Buteco não dá para conjugar porque não é verbo. É um adjetivo que expressa um modo de vida para as pessoas que estão dentro e fora do balcão.

Eduardo Pessoa disse...

Grande Edu, tenho observações a fazer...bom, não acho que o evento comida di buteco seja de todo ruim. Claro que há pontos negativos, como esse lance do patrocinio da maionese, que exigiu que os pratos tivessem maionese. De fato lamentável, vai totalmente de encontro à filosofia butequiana. Por outro lado, teve um comida di buteco de BH que a temática foi o jiló...isso é sensacional, não?
Cara, estamos numa época em que o passatempo principal dos jovens é o bate-estaca das boates. Um evento que estimula, ainda que por óbvias razões comerciais, a ida a bares para apreciar pratos e geladas não pode ser considerado como algo ruim em si.
Na minha cidade (Juiz de Fora) vai ter o "festival" esse ano. Mas há mais ou menos 10 anos temos aqui o nosso fesitival, chamado de JF Sabor. É bem legal, são criados pratos tradicionais (alguns nem tanto, mas tá valendo) que se incorporam ao cardápio do bar (convido-lhe a conhecer o bar pró-copão em JF, é o bar mais antigo de minas, há 80 anos no mesmo lugar e vencedor contumaz do JF sabor). Enfim, o festival tem prós e contras, mas o simples fato de estimular a ida das pessoas aos bares o torna válido, ainda que haja muitos pontos negativos.
Grande abraço e parabéns pelo blog, que sempre leio.
Eduardo Pessoa

José Guilherme Wasner Machado disse...

Concordo totalmente, Eduardo! Botequeiro de verdade ODEIA o Comida di Buteco. Esse evento NADA tem a ver com a cultura de boteco, tampouco tem a ver com a comida verdadeira de boteco. Essa aberração com certeza saiu da cabeça de algum mauricinho ou patricinha da zona sul, que jamais foi frequentador(a) costumeiro(a) de botecos. Cadeia para esse povo!

Há dois anos escrevi um post sobre esse assunto,desabafando minha revolta contra essa papagaiada. Se tiver curiosidade:

http://www.depoisdotrampo.com.br/2009/05/comida-di-buteco-as-invasoes-barbaras.html

Abraços!

Guilherme