3.3.11

CARNAVAL - EXORTAÇÃO À MORTE POR 3 DIAS

Quando o Salgueiro pisar na avenida na segunda-feira de Carnaval, por volta das 22h, estarei, como nos anos anteriores, e desde que me entendo por gente, diante da tela da TV assistindo, comovido, passar a vermelho-e-branco da minha aldeia, a vermelho-e-branco da minha Tijuca. Eu, devoto confesso da anti-festa - e já explico o porquê do "anti-festa" - pela primeira vez em muitos anos estarei quieto, no meu canto, durante os dias em que a magnífica esbórnia varre o Brasil de norte a sul, e varre meu Rio de Janeiro principalmente, centro nervoso da festa de Momo.

Há de ser assim, é preciso que seja assim. Os tempos pedem e meus deuses clamam, dentro de mim, por esse afastamento. Eis aí a primeira prova efetiva, que experimento na carne e na alma, de que o Carnaval é inversão, precipuamente é inversão. São os deuses, nesse momento, a quem tanto tenho me dirigido, que me pedem o afastamento. E eu me afastarei, que eu não sou besta de desobedecer.

Nasci em 69, filho de mãe salgueirense até a alma, como lhes contei aqui, e "o que importa é que eu sempre soube que mamãe, quando menina, morando na Rua dos Araújos, na Tijuca, evidentemente, teve uma babá, negra, que desfilava na ala das baianas da Acadêmicos do Salgueiro. Tem, ainda hoje, minha mãe, memórias vivíssimas da tal babá. Eu, quando menino, morando na Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, evidentemente, lembro-me, com a mesmíssima nitidez com que minha mãe lembra da negra baiana, de assistir pela TV aos longos desfiles das escolas de samba, sempre ao lado de minha mãe, e lembro-me de vê-la sempre chorando, emocionada, quando a vermelho e branco pisava a passarela. Lembro-me, mais nitidamente ainda - sinto as mesmas dores agora - de suas unhas cravadas na palma da minha mão, soluçando, comovidíssima com aquilo tudo. Talvez visse, na telinha da TV, sua babá. Talvez fosse uma quimera e a negra já estivesse morta, talvez fosse saudade, não sei, nunca perguntei nada. Eu atribuía tudo ao amor pela escola.".

Nesse mesmo texto, de dezembro de 2006, escrevi que "quando o Salgueiro pisar a avenida em 2007, evocando as Candaces, mulheres guerreiras, cantando um samba que se alinha à tradição dos mais belos sambas do Salgueiro - saudando os orixás, a África, os negros e suas heranças que encontram na vermelho e branco o mais bonito terreiro - eu vou ter, de novo, calças curtas, camisa listrada, pouquíssimos anos, e chorar de saudade - sabe-se lá - da babá de minha mãe.".

Ocorre que agora, meus poucos mas fiéis leitores, há uma necessidade mais urgente. Preciso, e como preciso!, morrer na madrugada do sábado para renascer, renovado, na quarta-feira de cinzas. E se meus deuses têm me feito tantos apelos (a tal primeira inversão), é um apelo público, desavergonhado, sem resquício de qualquer pudor, que quero fazer aos meus mais chegados, eles que entendem e entenderão a razão pela qual preciso desse afastamento, desse arremesso em direção ao passado e ao invisível.

Eu já vivi, em 2007, a experiência da morte, por amor a um amigo, a um irmão. Corria o ano de 2007, véspera do Carnaval, quando anunciei, de pé, na livraria Folha Seca, na sexta-feira, véspera do desfile do Bola Preta, diante de minha menina e de amigos meus que acompanharam, assombrados, o anúncio:

"- Morro agora, amigos meus, morro agora, amor da minha vida, para somente renascer amanhã à tarde, depois do desfile do Bola Preta, eis que cederei meu corpo, que não mais me pertencerá a partir da agora, para meu irmão Fernando José Szegeri, que desfilará, assim, pela décima nona vez, pelo portentoso Cordão!"

E fui - vejam com seus próprio olhos! - Fernando Szegeri durante o sábado de Carnaval, aqui e aqui, ele que não pôde vir ao Rio por conta do nascimento do filho.

É chegada, pois, a hora de mais uma subversão da lógica e da ordem, é chegada a hora da imortal vitória da ilusão, apud Aldir Blanc.

Permitam-me o desabafo, a prece dita aos prantos, a exortação feita em ritmo de samba bem marcado pelo surdo de marcação imaginário que há de me ecoar nos ouvidos, durante três dias, como o coração acelerado de um feto à espera da luz.

Afastar-me-ei das ruas do meu Rio mas hei de estar, em algum momento, ao lado de meu mano de fé, Fernando Szegeri, de quem já fui cavalo, nas ladeiras de Olinda, nas ruas do Recife, ao som da triste melodia de um frevo qualquer. Chame por mim, mano!, uma vez que seja. Hei de estar, durante um minuto que seja, bebendo com outro de fé, Luiz Antonio Simas, num bloco qualquer que há de sair no Rio de Janeiro, abraçado à Candinha e afagando a barriga que guarda o menino por vir. Chame por mim, mano, uma vez que seja! Hei de estar com Julio Vellozo, com Arthur Tirone, meu mano Favela, com o Felipinho, com meu do peito, Bruno Ribeiro: ergam um brinde à minha ausência-morte, chamem por mim, amigos meus, uma vez que seja! Hei de estar segurando Helena no colo, uma vez que seja, vendo passar o arlequim de mãos dadas com a colombina - chame por mim, Leo Boechat, uma vez que seja! Hei de estar com minha comadre, Mariana Blanc, tendo a Milena por perto, minha borboleta. Chame por mim, comadre, uma vez que seja! Hei de estar com a Betinha na Rio Branco, hei de estar com o Flavinho e hei de ver o Felipe tonto de rir diante de uma guerra de confetes - chamem por mim, queridos meus, uma vez que seja! Hei de estar de porre, trôpego, esbarrando na minha irmãzinha, a Marcela, que há de ser mais Manguaça que nunca durante o tríduo momesco, e hei de receber o abraço da Sonia ao chegar em casa pela manhã, trocando as pernas. Chamem por mim, minhas amadas, uma vez que seja! Hei de estar nos fios do talabarte junto do Buba, no coração da bateria da Vila Isabel, e hei de estar também na cabeça da baqueta que vai surrar o couro do surdo, serei eu, também, gritando. Chame por mim, malandro, durante o desfile! Hei de estar brincando com Rosa e com Chico antes de sair pra rua, hei de estar - hei de estar! - com minha comadre Stefania, misturado à turba de um bloco qualquer - chame por mim, maninha, uma vez que seja! Hei de estar vendo Iara, moça bonita de olhos negros como jabuticaba, afilhada que amo tanto, e hei de estar nas mãos e na voz da Railídia, que a Railídia há de cantar durante o Carnaval. Gritem por mim, queridas, gritem que eu me farei presente! Hei de estar ao lado de minha anã preferida, Flavinha Calé, e ao lado de Fernando Borgonovi, bebendo industrialmente e dormindo nas sarjetas da Tijuca. Chamem por mim, queridos, uma vez que seja! Hei de estar bordejando pela cidade com Fabinho Calé, serão seus os meus olhos a cada flerte furtivo durante a festa. Chame por mim, caboclo, chame que estarei presente. Uma vez que seja!

E quero estar, como quero e preciso estar!, experimentando de novo - eis o milagre da fé foliona - no instante exato em que o Salgueiro pisar na avenida, o calor do útero de minha mãe, longe das agruras e das dores do mundo, pronto pra apoteose da vida quando a escola acabar de atravessar, gloriosa, a avenida.

Em 69, quando nasci, pouco mais de dois meses antes de eu vir ao mundo - e eu cheguei pela Tijuca, é claro! - o Salgueiro desfilou cantando a Bahia de todos os deuses. Tenho, vá entender, absoluta certeza de que ouvi, ao vivo, a vermelho-e-branco desfilando naquele ano.

São os milagres do Carnaval. E quem há de duvidar deles?




Até.

12 comentários:

Tiago Rattes de Andrade disse...

Me lembrei de um episódio que vivi num carnaval, nas ladeiras barrocas de uma cidade do interior de minhas Minas dos Matos Gerais. Saímos eu e um amigo para um tradicional bloco, porém, erramos o horário e chegamos algumas horas antes da concentração. Resolvemos nos instalarmos na praça e beber até a hora do bloco. Ficamos por horas vivendo um carnaval a dois, relembrando os momentos mais sublimes e mais duros da amizade que havia nascido ainda no berço, das desventuras, felicidades, perdas,e aprendizados juntos. Fizemos da paisagem das montanhas e do rococó das fachadas, cenário de redenção e aprofundamento de uma sentimento de amizade, com a intensidade que só o carnaval permite. Sorrismo, rimos, gargalhamos, brincamos com as pessoas que passavam, com a s belas moças, e quando o bloco saiu, já estávamos em transe há muito tempo. Mal lembro. Só lembro desse renascer íntimo de uma amizade.

E que você, caro Edu, realize teu desejo, de refazer-se, no sentido mais amplo, assim como os orixás, que são vida e morte - e lhe abençoam - e nós que somos sua imagem e semelhança, como quis Olorum na cosmogonia desse nosso mundo. Felicidades!

Carlos Andreazza disse...

Bonito pácas!

Luiz Antonio Simas disse...

Saravá! Vosso pedido é uma ordem expressa.

Felipinho disse...

Deixa comigo, velhão.

Flávia disse...

Que assim seja!

Calé disse...

Sendo assim, chamarei Grande Edu!

Ministério disse...

Neste carnaval, o sucesso da galera está com o Reginho: Sem camisinha? Vou não, posso não. Assista ao clipe e entre na onda: http://bit.ly/i29Rzi.

Siga-nos no Twitter e fique por dentro desta campanha: www.twitter.com/minsaude
Para mais informações: comunicacao@saude.gov.br ou www.formspring.me/minsaude
Obrigado,
Ministério da Saúde

Marcelo disse...

Edu,

Sou seu leitor de outros carnavais e mantenho seu 'Buteco' nas minhas leituras cotidianas! Tijucano, Brizolista, Lulista e Dilmista como você; Tricolor e torcedor da Beija-Flor (embora tenha muito carinho pela Vila, Portela, Mangueira... amo mesmo é o samba!), discordo de coisas que você escreve e adoro outras!
De qualquer maneira, concordando ou discordando, sempre fico feliz e, por vezes, dou risadas a valer com seus excelentes textos!
E é por isto que estou escrevendo pela primeira vez para você. Explicando melhor: neste post, você deixa transparecer o quanto está se esforçando para seguir certos caminhos e o quanto isto está te custando! Somando isto a trechos de outros posts em que - ao menos, parece-me - você faz alusões a problemas de saúde, fiquei preocupado com você!
Não sei se esta preocupação tem fundamento ou não, mas como você contribui para minha alegria, luta e busca por informação, considero que, por simples reciprocidade, devo te retribuir tanta coisa boa, desejando, com carinho puro e verdadeiro de quem não te conhece - a não ser pelo blog! rsrs -, que você fique muito bem e que, nos próximos carnavais, as dificuldades de hoje sejam motivos de muita risada e cerveja!
Um forte abraço!
Marcelo

Claudio Renato disse...

Chamarei sempre por você!

José Sergio Rocha disse...

Evoé, idem, ibidem. Faço minhas as palavras do Claudio Renato, do Marcelo, do Calé, do Filipim, do Andreazza, da Flavia, do Tiago. O Ministério e o Reginho que se fodam.

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

to contigo, ze! carnaval eh na pele!

Betinha disse...

Tenha certeza que você esteve conosco. Aliás, como sempre está.
Beijos com muito carinho para você e para a Dani.