24.3.11

TOCOLOGIA NA TIJUCA

(dedicado a Benjamin D´Angelo Carneiro Simas)

Eis-me aqui, de volta, depois de dez dias de afastamento - necessários em razão da lufa-lufa do cotidiano (notem, pelo uso da palavra "lufa-lufa", que voltei ainda mais velho, mais antigo, mais múmia). Quero lhes contar hoje sobre a experiência que vivi no último domingo, 20 de março, dentro de minha própria casa. E como sou preciso do início ao fim farei minuciosa exposição dos fatos.

Estava eu, no sábado, a caminho da casa de meu irmão para um churrasco para o qual havíamos sido convidados, eu e minha menina. Estrilou meu celular. Era uma mensagem SMS. O autor? Luiz Antonio Simas, meu irmão, brasileiro máximo, tijucano de escol:

"Alguma boa para hoje?" - foi sua mensagem, curta e direta.

Disquei para ele.

Candinha, mulher do caboclo, acordara disposta e a fim de um encontro, um almoço, algo assim. Vamos a uma breve pausa para construção do cenário fático.

Candinha estava, já no sábado, com o ciclo da gestação completo. O que significa dizer que, a qualquer momento, poderia dar à luz o menino Benjamin. Voltemos.

Contei sobre o churrasco e a impossibilidade do encontro naquele dia. Atendendo sugestão de minha menina, excitadíssima com a gravidez da amiga, fiz o convite:

- Que tal vocês almoçarem lá em casa amanhã? Faço a feira cedo, compro camarões...

Ele me interrompeu:

- Camarões?! Claro! Claro! A que horas?

E marcamos. O Simas tem, pelo camarão, uma atração dionisíaca. É o agudo oposto, por exemplo, de meu compadre Leonardo Boechat, que sofre de uma alergia terrível a crustáceos, frutos-do-mar e outros bichos.

Fiz a feira cedíssimo no domingo. Comprei dois quilos de camarão, uma massa italiana, bastante alho, vinho branco português e às 13h30min - a hora exata marcada, tijucano é implacável! - explodiu a campainha.

Entram pela porta da sala (aberta pela primeira vez desde que moramos lá, há 12 anos, todos entram pela porta da cozinha por questões de praticidade, foi uma singela homanegem sugerida pela minha garota) Luiz Antonio Simas e Candinha, redonda, plena, deslumbrante de tão bonita (a maternidade ilumina a mãe desde a concepção). Houve, naquele momento, uma festa. Minha menina emocionada com a presença deles e antes mesmo de terminados os cumprimentos percebi o gesto de Luiz Antonio que, com o polegar da mão direita num vai-e-vem em direção à própria boca, implorava por algo para beber.

Até que recebemos relativamente pouco, mas temos o hábito de oferecer faustos ágapes a nossos convidados. Deixei gelando doze garrafas de Cerpa Tijuca, ouro líquido, e o Simas não escondia a ansiedade. As moças tricotando na sala e eu fiz a pergunta de praxe para o momento:

- Ansioso, velho?

Deu-se o seguinte: Luiz Antonio pôs metade da garrafa dentro da boca, bebeu tudo num só gole, pediu outra e disse:

- Evidente! Acho que estourou a bolsa! Estourou a bolsa!

- Estourou?

- Arrã.

Candinha, atenta, da sala:

- Luiz Antonio, calma.

Estava estranho, o professor.

Como uma piorra, zanzava entre a cozinha e a sala. Diversas vezes dirigiu-se à Candinha:

- Liga pro doutor! Liga! - e dizia isso gemendo, coçando a cabeça árida de pelos, roendo as unhas.

A certa altura Candinha disse um simples "vou ao banheiro". Parecia ter deflagrado uma guerra. Foi trancar-se no toalete e Luiz Antonio começar:

- E aí, querida?! Tudo bem?

Luiz Antonio estava de quatro farejando por baixo da porta:

- Isso não é cheiro de xixi, Cândida! Abre essa porta!

Vem a Candinha pelo corredor, Luiz Antonio a seguindo de joelhos depois de cheirar o vaso sanitário com o apuro de um pastor-alemão. Senta-se na melhor poltrona da casa, alisa a barriga e diz:

- Tudo em ordem...

Servi o almoço.

Senti algo respingando em meus pés. Luiz Antonio estava urinando, de nervoso. Fez-se uma poça sob a mesa, meu vira-latas, honrando a raça, lambia aquilo com intenso prazer. Simas mastigava os camarões chorando. E dizia, de boca cheia:

- Liga pro doutor, liga pro doutor... Desculpe a mijada, Edu, mas tá foda...

Terminado o almoço, ligaram pro doutor. Enquanto Candinha falava, docemente, ao telefone, Luiz Antonio rezava, de joelhos e mãos postas, diante da mulher. Ela desligou, pediu um copo d´água e ouviu os apelos do marido:

- E aí, meu amor... O que ele disse?

- Recomendou que nós fôssemos agora pro hosp...

Só voltei a ter notícias a 01h37min da madruga de segunda-feira, por telefone. Foi quando veio ao mundo o primogênito de Luiz Antonio Simas. Ontem, no meio da tarde, nova mensagem no celular:

"Benjamin já se encontra em terras tijucanas. No caminho, demonstrou especial interesse pela região da Praça da Bandeira"

Minutos depois - e eu infelizmente não pude atender ao convite - ligou-me o pai, o felizardo, não cabendo em si de tanta euforia.

Mãe e filho em casa, e o pai - imerso na euforia mágica da paternidade que eu não pude experimentar - no Salete, comprando o almoço e brindando à vida com um chope bem tirado.

Até.

9 comentários:

Beatriz Fontes disse...

Minhas saudações ao ilustre Benjamin, que veio alegrar a vida tijucana! E parabéns ao Simas e à Candinha, que devem estar super felizes lambendo a cria. :-)

Mariane disse...

Que bela história!

Um brinde ao Benjamin...

Beijo.

Diego Moreira disse...

É um troço fantástico o que se sente nesse momento. Acompanhei suas tuitadas relatando a coisa toda no dia. E recebi a mesma mensagem do camarada ontem, sobre o especial interesse pela região da Praça da Bandeira. Quero mesmo é ver a cara do petiz, quando baixar a poeira da revolução que ele deve estar causando naquele ilê tijucano.

Abraço, meu velho!

mari disse...

que emocionante... tenho enorme curiosidade sobre a iminência de se ser pai! deve ser uma emoção insuportável, o pobre não tem noção de P nenhuma, nadinha mesmo, só incertezas, nenhuma preparação física ou mental para estar redondo como o Maraca ao fim de 9 meses e parir. só pode esperar, coitado... insuportável! acho que eu enfartaria.

Mônica Machado disse...

Seja bem vindo o Benjamin! Parabéns, aos pais, Cândida e Simas! Mais uma criança, Edu; e tinha que ser assim, esse menino precisava chegar ao mundo com a sua casa de antessala. Beijos ensolarados!

PBL disse...

Muitos foram os Benjamins ilustres nesse mundão de meu deus, mas não tenho duvida que esse será um Benjamim MAIUSCULO !!!! Eu fui aluna de Simas quando ele nem era casado AINDA (Eu acho..) e sei que ser pai pra ele deve estar sendo Supimpa (Eu tmb sou entiga, apesar de meus 28 anos!) !
A proposito.. O garoto ja diz a que veio quando demonstra interesse pela Praça da Bandeira ! Um dos melhores lugares que eu ja morei ! Em homenagem irei a feira da Garibalde !
Beijos no pequeno !

José Sergio Rocha disse...

Saúde, muito leite nestes primeiros anos e líquidos melhores no futuro são meus votos para este Benjamin D´Angelo Carneiro Simas, o qual, apesar de ter nome de presidente do Fluminense, com certeza será mais um titã na arquibancada do Glorioso.

Eugenia disse...

muita saúde para o garotão e parabéns aos pais!

Jairo Costa disse...

Edú,
Belo artigo, belo presente seu para o Benjamin.

Abraços

Jairo