27.4.11

27 DE ABRIL, O QUADRAGÉSIMO SEGUNDO

No exato instante em que este texto for publicado - zero hora do dia 27 de abril de 2011 - estarei a poucas horas de completar exatos 42 anos de vida, eis que vim ao mundo numa tarde de domingo, exatamente às 15h32min, no hospital da Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca - onde mais? - único lugar possível para um sujeito como eu (e onde hei de morrer, que eu não sou maluco de morrer longe daqui). Estarei, como há tantos abris, logo pela manhã, passando a vida como num rolo de filme numa tentativa insana de viver de novo cada minuto desses pouco mais de 22 milhões de minutos vividos até então. Coisa pacas...

Eu, que sinto-me mais que nunca uma múmia, velho, caquético, tenho no rosto bem mais que a marca de meus 42 anos. Tenho as marcas do sofrimento que enfrenta todo aquele que está vivo, que a vida não é de brincadeira e prega cada peça que vou lhes contar... Barba branca, dores nas costas, sístoles e diástoles assustadoras, ptose num dos olhos, por aí.

E tenho como um de meus vícios (sou um homem que cultiva os próprios vícios dentro de uma estufa imaginária) fazer um balanço, ano após ano, pra ver como anda a maré.

E eu não posso reclamar, em absoluto, do que tenho hoje dentro do balaio de meus 42 anos. Tenho a meu lado, há quase 12 anos, a mulher que me ensinou a sorrir, ainda que a roda-viva da vida nos tenha lançado um tremendo desafio no colo - mas eu sou da Tijuca, pô!, e faço diariamente, assim que chego do trabalho, uma sessão de embaixadinhas, trazendo o desafio nos pés, para fazê-la sorrir diante de mim. E quando ela sorri não há sofrimento capaz de me tirar o humor. Tenho meus pais vivos, e papai e mamãe são os verdadeiros sustentáculos desse edifício que ergui com meu nome. Digo sempre, em oração silenciosa, de mim para mim, que se eu não fui (e não sou) o filho que eles esperavam ao menos honrei (e honro, diariamente) as maiores e mais graves lições que deles recebi.

Vai daí que sou - sei - um sujeito difícil. Mas muito dessa dificuldade (ou do que chamam "dificuldade") vem da minha postura absolutamente incorruptível que não me permite transigir com o que considero meia-palavra, meia-boca, traição, mentira, sordidez, canalhice, calhordice e falta de caráter. Esta, uma das razões pelas quais angario gente à minha volta com a mesma facilidade com que angario desafetos, e um homem sem desafetos, sem inimigos, é um projeto fracassado de homem. Tenho orgulho de cada um deles, de meus amigos e de meus desafetos, que são como medalhas que trago estampadas no peito como sinal de que acerto no trilhar do caminho que desenhei pra mim.

Não tenho mais meus bisavós vivos, nem vivos estão meus avós, mas só um tolo afirmaria, com uma frieza que eu jamais conheci, que eles não estão vivos e ao meu lado. Tenho meus irmãos, e de sangue são dois. Tenho meus irmãos, e de fé são muitos - com a graça dos deuses a quem agradeço e louvo todos os dias. Tenho uma exército de moças, queridas minhas, minhas comadres, minhas afilhadas, irmãs que ganhei durante a trilha, a me embelezar o caminho. Não tenho, de fato, do quê me queixar.

Há uma - e apenas uma - queixa, apenas (antes que meus detratores empunhem as armas, foi de propósito esse repetir do "apenas"). Sinto cada vez mais distante o moleque no colo da mãe, no curso de 1969. Eu tinha, ali, os olhos cheios de uma inocência que se esvaiu com o passar dos anos. Lembro-me de que certa vez, não lembro quando, escreveu-me o bom Szegeri, um de meus orixás vivos. Tendo visto uma foto minha, escreveu-me pra dizer que havia visto, nos meus olhos, o oco onde antes havia o brilho, a dor onde antes reluzia alegria. Não estava de todo errado, meu irmão. Talvez eu sofra demais por tentar manter aceso esse brilho, por tentar suprir a ausência de um filho, por tentar dizer sim, todos os dias, quando a vida me acena com não.

Mas eu sou tijucano, pombas!, e aprendi nas ruas, no asfalto da vila na qual fui criado, a dobrar o tempo e a viver de arremessos capazes de me fazer ganhar o axé necessário pra seguir de cabeça erguida, queixo (que eu não tenho) pra frente e de braços abertos. Aos que vira-e-mexe me dizem "pare de comprar briga, Edu!", respondo sem medo do erro que é disso, também, que me alimento. Se eu preciso de paz, faço a guerra pra que tenha melhor sabor a paz quando chegar. Se eu preciso de luz, armo o breu absoluto pra que uma nesga de claridade me sirva como guia.

É esse movimento que mantém vivo. Há 42 anos. Escolhi, por ser feliz assim, viver na encruzilhada.


Até.

17 comentários:

titia Josilda disse...

Feliz aniversário Tijucano Edu. Abraços

Tande Biar disse...

Feliz Aniversário companheiro!
Saúde e sucesso, sempre.

Mônica Machado disse...

feliz aniversário a ti, ô rapaz edu!
e para a gente que te lê, esse seu aniversário já começou em presente... emocionado como você bem sabe emocionar. beijo, saúde, axé!

Marcela Z. disse...

Feliz Aniversário, Maleta. Acho graça quando lembro do medo e raiva que sentia sempre que precisava te encontrar. Hoje sinto saudade se fico uma semana sem dar ao menos um alô.
Foi muito bom poder te conhecer.É muito bom ter você em minha vida.
Amo você, meu irmão querido.

Beijo
Manguaça

Ricardo disse...

Parabéns Edu. Pouco te conheço, mas aí vão meu sinceros votos de que somente coisas boas aconteçam em sua vida.
Abs
Cheval

Patrícia Cortez disse...

Vida longa! De onde saiu toda esta força, brilho e alegria tem mais.Mesmo em tempos difíceis.Fato. Caralho, choro.Vou à terapia, pois e lá que tento tratar minha loucura.Lidar com perdas e sofrimentos. Sem falar de Augusto que é minha aurora boreal.
Um forte abraço.

Patu

Toré disse...

Parabéns de novo Edu ! Lindo texto mais uma vez. Já sou seu fã de carteirinha. Grande abraço e continue sendo esse "sujeito difícil" e admirável ao mesmo tempo.

Tommaso-Brasil disse...

Parabéns Edu, muita saúde e paz...ou guerra, para que a paz tenha melhor sabor, como vc mesmo disse.

Marcelo Moutinho disse...

Feliz aniversário, camarada!

Alfredo disse...

Feliz Aniversário, meu grande Camarada.O brinde fizemos, ainda que sem saber, naquela manhã espetacular do dia 17 último, lá no Bar do Chico.Grande abraço!

NADJA GROSSO disse...

Edu mais uma vez chorei lendo o seu texto. Para você uma frase que expressa o que acho de você.
Te amo

"Se você consegue aprender através dos duros golpes, você também consegue aprender pelos suaves toques. "
( Carolyn Kenmore )

LIA disse...

Olá Edu, sou um leitor de seu blog, sou do interior de SP. Te desejo um feliz aniversário e que seja azul o céu que sempre te olhar... Vida longa!!!!

Bruno Quintella disse...

Olhos marejados, levantando e abaixando a cabeça lentamente, como uma confirmação silenciosa: um dos melhores textos que li na vida. Obrigado, Edu. E parabéns!

Marcelo Peixoto disse...

Maravilhosa postagem Edu. Parabéns..por tudo que você representa!
Um grande abraço!

Rodrigo disse...

PUTABRAÇO EDU!!!!

caique disse...

Edu, um abraço de Niquíti, atrasado mas sincero, pelo seu aniversário. Saudações rubronegras.
Caíque.

implacavel disse...

"Aos que vira-e-mexe me dizem "pare de comprar briga, Edu!", respondo sem medo do erro que é disso, também, que me alimento".

Tipico filho de Ogum...Ògún onire alagbara.

Meus parabens...