14.4.11

42 ANOS - COMEÇOU O ARREMESSO AO PASSADO

Quem me lê com freqüência sabe que sou um homem por diversas vezes acometido por verdadeiros surtos de arremesso violento em direção ao passado.

Esses arremessos - e faço constantemente menção a eles - acontecem, quase sempre, de forma involuntária. Explico.

Estou no carro deslizando pelas ruas da Tijuca. Passo, por conta do caminho necessário, diante do número 84 da rua São Francisco Xavier. É o que basta: estou, em questão de segundos, com 10 anos de idade, calças curtas e camisa listrada, jogando bola de meia na vila onde moraram meus avós. Estou na cozinha e diante de mim, sobre a pia, a cesta de frutas onde repousam algumas bananas. Se ocorre de eu esbarrar o olhar, num átimo de segundo, no açucareiro, lá vou eu cortar a banana ao meio, no sentido longitudinal, pô-la num prato de louça, fatiá-la com a faca em pequenos quadrados sem tirar a casca, pôr um punhado de açúcar ao lado e comer à moda de minha bisavó. Se vou à Teresópolis, ou mesmo se passo por lá a caminho de Nova Friburgo, ouço a voz de minha tia Zirota com uma nitidez capaz de fazer qualquer psiquiatra pedir arrego diante de mim. E por aí vai.

Ocorre que com a aproximação do dia 27 de abril, dia em que nasci - na Tijuca, evidentemente - esses arremessos ao passado passam a ocorrer com mais freqüência, muitos deles provocados por mim. Volto a explicar.

Hoje mesmo, 14 de abril, saltei da cama, serelepe, às 03h20min da manhã. Aqui, um pequeno parêntese. Sou mais filho do meu pai do que supõe meu DNA. Papai, que é um homem que anda com frases feitas no bolso e que são por ele repetidas com cômica assiduidade, acorda, há anos, por volta desse horário. E é encontrar o velho pra ele começar:

- Hoje acordei tarde... - e ele faz cara de quem espera a reação já ensaiada.

Às vezes é meu irmão que o interpela:

- É? A que horas?

E ele, dotado de inexplicável orgulho:

- Três e quinze!

Captaram?

Mamãe e minha menina vira-e-mexe tricotam, e eu pesco:

- Maria, o Eduardo está ficando igual ao Isaac! - com uma máscara de terror no rosto.

Mamãe bate na mesinha de madeira mais próxima:

- Minha filha, abra o olho, abra o olho! E que ele copie só as coisas boas!

Minha garota emenda:

- Tem acordado cada vez mais cedo...

Dá-se novas batidinhas na madeira:

- Ai, ai, ai... - em tom de lamúria.

E fecho os parêntesis.

Pois bem. Eu, que de fato acordo cedíssimo, acordei hoje às 03h20min - o que não é, é claro, comum - por conta de um arremesso ao passado típico da véspera de meus aniversários. Dá-se em mim, nos abris, uma sensação que, em 2006, aqui mesmo no blog, assim defini:

"Há, em mim, constantemente, e mais em abril do que em qualquer outro mês, uma permanente gana de dizer o que já foi dito, de escrever o que já foi escrito, de inventar o que já está inventado há dezenas, centenas, milhares de abris."

Pois hoje, às 03h20min da manhã, fui à cozinha, preparei meu café preto, acendi meu primeiro cigarro do dia, fiz festinha no meu vira-latas, chorei sem razão aparente e fui ao banheiro atestar, diante do espelho, o quanto de tempo se acumula em mim, nos meus olhos com ptose, na minha visão discretamente míope, nos fios brancos da barba rala que carrego no rosto, e só recuperei o humor quando voltei ao quarto, já de banho tomado, por volta das 5h. Escuro, ainda, o som do ar-condicionado e aquela voz baixinha e rouca saindo debaixo do cobertor:

- Tu tá ficando igualzinho ao teu pai...

Perto de completar 42 anos, não é exatamente fácil perceber o quão distante vou ficando daquele menino que jogava bola de meia na vila da São Francisco Xavier. A luta permanente para mantê-lo vivo dentro de mim é, estou a cada dia que passa mais certo disso, o que me sustenta o ânimo e que me mantém.

Até.

3 comentários:

Joel Bueno disse...

Ao que parece, Edu, ficar cada vez mais parecido com seu pai é o jeito de manter o menino vivo dentro de você.

carolnespoli disse...

Lindo texto!!!

Danilo disse...

Êeeeeeee, vida voa... vai, o tempo vai... Saudade de você, Edu. Que seja uma festa e tanto no seu dia!