5.4.11

FAZ UM 12, BRIZOLA!!!!!

No dia 18 de agosto de 2006 expus, aqui, o vídeo no qual apareço gritando "Faz um 12, Brizola!", ao vivo, na TV Globo, durante a final de um dos festivais de música promovidos pela Vênus Platinada. Ontem, depois de descobrir a conta no twitter de Serginho Groisman e Renata Ceribelli - os dois jornalistas que trabalhavam naquela noite de 16 de setembro de 2000, há quase 11 anos! -, expus novamente o meu feito na grande rede, e deu-se a bulha. Muita gente repicando o vídeo, muita gente me dando os parabéns pela coragem, muita gente achando muita graça e me perguntando sobre os detalhes que envolveram a ação que ganhou contornos de subversão (o que muito me orgulha, diga-se).

Como eu sou preciso do início ao fim, vamos aos detalhes do troço.

Corria, como já lhes disse, o ano 2000. E é preciso contextualizar para que tudo ganhe os contornos de emoção que a noite teve.

Em 2000 eu e Moacyr Luz, que faz anos hoje, éramos quase-siameses (digo "éramos" porque não trocamos mais palavra). E o Moacyr, que concorrera com o samba "Eu só quero beber água", chegara à grande final, em São Paulo, que aconteceria no Credicard Hall. Na época, um de nossos bunkers era o Bar da Dona Maria, hoje um triste arremedo de botequim na rua Garibaldi, na Tijuca, onde morava o Moacyr (no mesmo prédio onde até hoje mora Aldir Blanc). Pois o povo do Bar da Dona Maria armou animadíssima torcida pra comparecer, em peso, à finalíssima. Mandamos fazer camisas com o nome do samba, pintamos faixas, cartazes, o escambau a quatro.

Sigamos contextualizando: corria o ano 2000 e meu saudoso e eterno governador, Leonel de Moura Brizola, era candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro. Mantendo uma tradição, a sambista Beth Carvalho emprestou a voz para o principal jingle da campanha: "Faz um 12 aí! Faz um 12 aí! Com Brizola o Rio vai voltar a sorrir!".

Em 2000, Brizola ainda era um palavrão segundo os manuais de redação da TV Globo. Seu nome era proibido, vetado, terminantemente censurado. E quem - vão tomando nota dos desenhos... - era a cantora convidada para fazer o show de encerramento do festival da Globo? Ela, Beth Carvalho. O convite, é claro, havia sido feito antes de deflagrada a campanha eleitoral, antes da voz inconfundível da Beth ecoar, aos quatro ventos, nas TVs, nas rádios, nas ruas, exaltando a candidatura de Leonel Brizola.

O que fez a TV Globo? Desconvidou Beth Carvalho e em seu lugar chamou o também sambista Jorge Aragão. Prova disso, como se não bastasse o telefonema que recebi da cantora, era o convite para o festival. Constava lá: show de encerramento com Beth Carvalho. E sobre o nome da Beth, um carimbo, vermelho, onde se lia: Jorge Aragão.

Quando a Beth me ligou - brizolista roxa! - indignada, eu disse num sem-pulo:

- Querida, fica tranqüila. Eu vou te vingar! - e mais não disse.

Confesso a vocês, quase 11 anos depois, que eu não tinha a menor idéia do que faria: mas eu faria alguma coisa (e os que bem me conhecem podem atestar como se dá, em mim, essa centelha).

Parti na véspera levando na bagagem um boné vermelho com o nome Brizola em letras brancas, enormes. E disse, de mim para mim:

- Vou levar dobrado no bolso da calça. Lá eu vejo o que faço.

Houve um encontro, no Pirajá, horas antes do festival, já em São Paulo, é claro. Só duas pessoas sabiam, àquela altura, de minhas intenções: minha menina e meu irmãozinho, Fernando Szegeri. Mas nem eu mesmo sabia, ainda, o que é que eu aprontaria. Mas eu aprontaria!

Partimos pro Credicard Hall. Teve início o festival, transmitido ao vivo para todo o Brasil. Percebi que durante os intervalos o apresentador Serginho Groisman chamava a repórter Renata Ceribelli, no meio da platéia, para entrevistar a assistência. Num desses intervalos, a abordei:

- Eu vim do Rio... Posso falar?

E ela:

- Pode! Pode! Fica aqui, fica aqui... Daqui a pouco eu entro!

E foi, num átimo, que a idéia me veio à cabeça. Ao se dirigir a mim, a repórter, eu meteria o boné na cabeça e daria o grito de guerra:

- Faz um 12, Brizola!

E assim foi.

Atentem para a dinâmica dos fatos:

01) segundos após meu grito estrilou meu celular. E eu só ouvia as gargalhadas da minha querida Beth Carvalho;

02) fui cercado, logo depois, por 8 seguranças, todos de terno, que diziam coisas como "fora daqui", "vem conosco, vamos dar uma volta lá fora", e eu resistindo. Um deles, pelo rádio, gritou "o Talma quer esse cara fora do teatro!", por aí;

03) estrila de novo meu celular. É meu pai, aflito: "Você enlouqueceu? Já são mais de cinco minutos de comerciais, eles pararam a transmissão do festival! O que está acontecendo?";

04) minha menina pula, como um coala, na minha cintura e começa: "Ninguém toca nele, ninguém toca nele!", a essa altura os caras já estavam me empurrando pro lado de fora. Chegam Fernando Szegeri e Marcus Gramegna, amigo de São Paulo, o bravo Marcão, ambos advogados, e passam a exigir uma explicação para aquela truculência;

05) um homem, mais velho, apresentou-se como o Chefe da Segurança e me perguntou, calmamente, o que eu havia feito. Exibi o boné e disse: "Gritei o nome do Brizola com esse boné na cabeça. Eis minha arma, eis meu crime...". O homem riu, disfaraçadamente, e disse: "Você não fez isso... diz que não fez...", e passou a negociar uma saída pacífica;

06) eu soube, tempos depois, que o Moacyr Luz, que entraria em seguida no palco, estava sendo abordado, também por seguranças, na coxia, já que eu vestia a camisa com o nome de seu samba. Queriam saber, a todo custo, quem eu era, onde morava, detalhes;

07) uns minutos mais tarde, graças à intervenção do Chefe da Segurança, graças à atuação do Szegeri e do Marcão, e de minha menina, chegamos a um consenso: nós continuaríamos no teatro, afastados da platéia, numa espécie de camarote vip. E vigiados de perto. A cada ida minha ao banheiro, lá iam dois, três seguranças!;

08) terminado o festival o Chefe da Segurança me pediu, encarecidamente, que eu lhe entregasse o boné "para perícia". Ri tanto daquilo que não me opus;

09) voltamos todos ao Pirajá. E o Moacyr Luz não me dirigiu palavra, atribuindo a mim sua derrota.

No domingo seguinte, a revista Veja exibiu minha imagem com a frase: "Eduardo Goldenberg, advogado carioca, no auditório do Credicard Hall durante a final do festival de MPB da Globo, colocando a repórter Renata Ceribelli numa saia-justa". Tal texto foi escrito por um jornalista amigo meu, razão pela qual meu nome aparecia na matéria (abaixo).


Quando eu cheguei de volta ao Rio, a página do PDT na internet exibia o vídeo com uma tarja enorme: "Deu 12 na Globo", e seguia um texto exaltando um "homem que pôs o nome de Brizola, depois de anos de censura, no horário nobre da TV Globo". Escrevi para o partido. Identifiquei-me. Disse que minha imagem estava à disposição da candidatura de Brizola. E isso me rendeu um telefonema, que durou 40 minutos, do próprio, poucas horas depois do envio da mensagem.

Dali em diante, sempre que eu encontrava Brizola (e nosso último encontro foi em 2002 na casa do Martinho da Vila, como lhes contei aqui), ele fazia referência ao episódio.



Eu tenho um orgulho danado de ter feito o que fiz. Era o que eu queria lhes contar.

Até.

18 comentários:

FVale disse...

Sensacional. Brilhante. Parabéns!

Fernão

Deb. disse...

Assim como existe "vergonha alheia", existe "orgulho alheio". Foi o que eu senti agora. :-)

Parabéns pela presença de espírito e pela coragem!

Beijos,
Deb.

Alfredo disse...

Meu Camarada, isso é espetacular.Subversão na veia.

Toré disse...

Grande Edu ! Não conhecia essa história ! Fiquei com inveja de você !! Ressuscita Brizola !!

Ana disse...

até me emocionei! me filiei ao PDT assim que pude por admiração ao Brizola.
amei a atitude!

Carlos Andreazza disse...

Grande história, que merece uma ressalva: Moacyr Luz não perdeu o tal festival por causa de seu ato, Edu, mas porque o samba dele era bem mais-ou-menos.

Cynthia disse...

Nossa, imagino a cara da Beth vendo isso pela TV. Muito legal, Edu, parabéns pela atitude (e pelo telefonema recebido depois, deve ter te enchido de orgulho).

Elika Takimoto disse...

Discordo do Carlos, o samba do Moacyr foi demais da conta de bom. E qto à sua atitude como todos seus fieis leitores invejei, me orgulhei e morri de rir com a sua arte.

Tudibão, Edu!

Murilo Mendes disse...

Já tinha visto o vídeo. A história é genial!

Dudu Santos disse...

Mas o Moa continuou a falar contigo depois do episódio né? Afinal a entrevista que tem no blog é depois do ocorrido, confere?

Anunciação disse...

Como diz Deb,orgulho alheio.Já té no meus favoritos.Lindo.

Nelson Borges disse...

Caraca Edu!
Eu me lembro bem desse epsódio, não fazia a menor ideia que era você, só você mesmo. Lembro que ficamos discutindo aquela atitude no intervalo, alguns falaram que era no mínimo falta de educação, outros admiraram a coragem, eu morri de rir e senti um pouco de inveja, queria ter feito a mesma coisa.

Abraços

Em tempo:
não sabia quem era o Moacyr, e nem imaginava que beberia chopes com ele anos mais tarde, mas aquela canção já era a minha preferida.

Eduardo Goldenberg disse...

Fernão, Deb, Alfredo, Toré, Ana, Cynthia, Elika, Murilo Mendes, Anunciação, Nelson Borges: muito obrigado!

Andreazza: pois foi o que eu disse a ele quando percebi a cara virada depois: "Você está fazendo comigo o que faz o torcedor que diante da derrota merecida de seu time põe a culpa no juiz". Esse samba não está nem na lista dos 50 mais do Moacyr. Abraço.

Dudu Santos: confere. Mas o troço durou pouco tempo. Outras questões - mais graves e desinfluentes por aqui - tornaram a coisa inconciliável. Abraço.

ACORDABAMBA disse...

Fala Edu!
Eu já havia visto o vídeo. Entretanto, não conhecia a estória, que você descreveu em todos os seus pormenores. Aquelas imagens, a partir do seu relato, ganham ares de dramaticidade e pra mim tornaram-se "épicas do youtube"!!!
Cordiais Saudações,
Orlando Rey

Mafuá do HPA disse...

Grande Edu:
Sigo esse belo exemplo de como podemos driblar o poder e aprontar nas brechas. Tenho um grande amigo aí no Rio, o Latuff e ele sempre diz que "perdemos a guerra. Eles venceram, pois não vamos mais modificar o estado de coisas que aí está, mas enquanto viver serei uma pedra no sapato deles. Mostrarei em todas as oportunidades possíveis como eles são ridículos".
O seu ato foi isso e reverencio e o uso como exemplo por aqui.
Saudações bauruenses do
Henrique Perazzi de Aquino
(www.mafuadohpa.blogspot.com)

Dona Chica disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Muito bom muito bom!!!!

Yvy disse...

Parabéns! Crer e fazer !

abrs

aiaiai disse...

GENIAL, morrendo de orgulho alheio por você!